segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Saudade
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
ESTANQUE
Essas novidades tão modernas só me fazem descrer ainda mais na raça humana e na sua salvação, daí eu entro na igreja bonita da praça da Liberdade - parece uma gruta perdida - e lá olho aquele Cristo sofrendo e só posso dizer "Hey cara, isso vale tanto a pena assim?" E, claro, ele não responde, nem responderá, apenas sangra. Eu fico com raiva e coloco o ipod no talo, até não ouvir sequer mais um som do mundo, e fico imersa naquela dor que é revolta, medo, indignação e, sobretudo, um amor tão grande que não tem colo para chorar e se aninhar.
Daí eu, sei lá, nem sei como escrever essas coisas que somente a alma vive. Eu sei que sinto saudades de algumas pessoas, mas elas já morreram. Fazem parte das cinzas que depositei no mausoléu das lembranças desnecessárias. E eu até gosto disso. Estou livre demais. Só espero saber o quê fazer dela agora.
Alguma sabedoria devo ter adquirido na caminhada até aqui.
Olho ao meu redor, praça da Sé, 18:30. Os sinos tocaram e um dia já é findo. Eu quero sentar nessa escada e perguntar para o cego pinguço se tudo ficará bem.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
CASA NO CAMPO
Babilônia
big city
é esse agito
contínuo, novidade
i like it
but
às vezes eu ainda sonho com a casa no campo
rock´n roll nas montanhas
relógio lento na sala
enquanto o sol caminha e deixa a vida
com sabor de mel, café torrado e bolo recém-assado
eu sou de sampa
e ainda troco essa roupa
dura e cinza
por algo bem leve
que balance com o vento
e tenha cheiro de mato molhado
e amor de se levar até as últimas rugas
and "what wonderful world"
the end
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
DEVANEIOS PARA UM FERIADO
Eu só decidi manter um grande segredo. Então eu acordava de madrugada como se fosse dia claro, saía e respirava o ar que descia gelado e novo das montanhas. Acompanhava o sol e de certa forma participava da criação do mundo. Era o que então eu pensava, sorrindo discretamente, enquanto olhava o verde, o azul, e uma penumbra dourada que transbordava pela janela da cozinha e fazia o bolo de mandioca ficar bronzeado.
O cheiro do café tomava a manhã e desaparecia lentamente. As abelhas, as flores, tudo pareceria só meu, criado por mim e por alguma outra coisa também mágica do universo. Caso eu ainda estivesse sonhando, parecia muito real. E quem poderia me dizer o contrário, se eu estava sentindo e vendo toda aquela vida muito honesta e calma por todos os meus poros e vivia a paz?
E ouvia alguns bichos que pareciam ensaiados, mas também tinha algo de improvisação, quando o besouro pousou no livro, e me assustei, e todos riram. Eu também.
Era alegre, morno, com cheiro de mel e café, cerveja gelada, um pulo na piscina, leve arrepio, cheiro de grama cortada, sorrisos de interior, música e nostalgia, talvez alguma confissão sobre o invisível.
Daí eu sei que gosto de ficar só e quando perto dos amigos mais queridos percebo algum privilégio em manter-me fiel à verdade da vida, que mesmo dura, nos brinda com momentos tão completos que vale então tudo.
O resto é só a vida mesmo, vai compreender... .
domingo, 16 de agosto de 2009
Looser
a linha
o dom com as palavras
mais bonitas
as deixei nas sarjetas
outra vez,
toda a esperança sorrateira
os sonhos inebriantes
decaíram como heróis que nunca existiram
e a lucidez catastrófica
reapareceu
por detrás desse verniz falso
“o teu nome é caretice”
e às vezes é fluoxetina
e tantas outras drogas
pra gente morrer e continuar vivendo
e agora que eu morri, desejo viver
e morrer, morrendo
i´m so confused, baby
whispering
take care...
please
é o preço da escolha
terça-feira, 4 de agosto de 2009

- Viu como a esquerda entrou? – diz-lhe o treinador, um negro de bigodes, logo que chegam ao vestiário.
O meio-médio ligeiro balança a cabeça, confirmando, no entanto sem compreender as palavras que lhe foram ditas. Tira as ataduras das mãos com a tesoura, em seguida livra-se das roupas e das botas e entra no chuveiro. O relógio dependurado na parede marca quatro e dezesseis da tarde. O sol entra por uma fresta no basculante. A água fria, em contato com a sua pele, dá-lhe uma sensação agradável, renovadora. Fecha os olhos enquanto a água cai, cruza os braços por sobre o peito e respira forte. Mesmo dali, ainda consegue escutar as vozes no ginásio, agora gritando para uma outra luta – eles precisam de alguém. Relembra alguns momentos do seu combate, um golpe que entrou, outro que passou perto, um que levou. Às vezes, quando uma luta acabava, tinha a impressão de que fora favorecido pela sorte, que algo de extraordinário, talvez espiritual, acontecera e ele então saíra-se vitorioso. Em outras vezes, tudo dera errado apenas por conta do azar; nunca, em nenhuma situação, a sua competência entrara em jogo, e sim algo maior. Eram pensamentos estranhos, mas ele acostumara-se a tê-los e ficava mais fácil assim.
Desliga o chuveiro e senta-se num banco, a toalha enrolada na cintura, a pensar.
- Te disse que ele não tinha pegada, ia cansar – fala o treinador -, se me escutasse antes, a diferença seria bem maior. Moleza.
Os braços continuam inchados. O cansaço diminuiu, mas sabe que precisará de forças. Os cubanos são duros, ouviu falar.
Estira as pernas e deita-se sobre o banco.
Imaginara dezenas de vezes aquela luta, mas, de alguma forma, algo estava diferente. Está estranhamente tranqüilo. Sente a importância do momento, mas sente-a nos outros – na cara nervosa do treinador, no sorriso de um dirigente que lhe procura, no semblante de um outro lutador. Por sua cabeça, entretanto, pensamentos distantes: lembra da voz rouca de uma atriz, duma vez em que fumou maconha atrás de um colégio com dois amigos, da cor que o piso do ringue tem. Sua mãe certamente está em casa, com o terço nas mãos, de frente para a tv. Talvez seja de bom agouro ligar para ela, escutar o que tem a dizer. Faz o movimento para levantar-se, mas alguém então entra no vestiário: tem pressa, necessita urgentemente de um protetor. Outras pessoas aparecem, mais uma luta chegou ao fim. Ele fecha os olhos e esquece o que acabara de pensar.
- Acorda, rapaz.
Meia hora depois e o treinador está de pé, ao seu lado, balançando-lhe.
- Tá na hora...
Por cima de uma mesa, o conjunto limpo de short e camiseta, ambos vermelhos e com listras brancas. Lava o rosto. Olha-se no espelho. Por um momento, gostaria de saber se o seu rosto é o rosto de um vencedor. Talvez seja. Talvez esteja apenas um pouco velho para a idade que tem.
- Vamo, porra! – diz o negro de bigodes, dando-lhe tapas nos braços e nos ombros – essa é sua, caralho!
Após alguns exercícios, o meio-médio ligeiro está pronto para lutar outra vez. São cinco e vinte e sete de uma tarde quente de domingo. No ginásio, o público espera, ansioso.“Deus, me ajude!” Seus olhos brilham. O barulho é imenso. Saltitando de um lado para outro, ele ganha o corredor, na dúvida entre tentar cantar ou não o hino nacional.
R.M.
NO ME GUSTO MAINSTREAM
lado B
Não gosto daqueles, tipo
top 10
mais vendidos
prediletos
essenciais
Eu te quero todo
Do jeito que ninguém
viu ou ouviu
novo e secreto
que devo descobrir
deliberadamente
FUCK OFF!
de tecido vivo, vasos,
sangue muito vermelho
pulsante
dança o pensamento
sem nunca desejar ser único e parar
e também tenho cabelo nas ventas
minhocas que tartamudeiam minha cabeça
e daí eu fico toda gente demais
e sinto extremos ao longo do dia
e me recuso a viver como lagartixa
na frente ociosa da tv noturna
depois de trabalhar de forma enfadonha
e dormir ao lado de um corpo
tão morto
todas as noites
as ventas queimam minhas idéias
que pulsam meu sangue
e derramo lágrimas carmim
sejam elas de alegria ou dor
como um gozo dissolvido
em suspiros em seus ouvidos
sinto tudo de uma vez, só
E o resumo da ópera da minha vida
é que eu nasci pra viver
e vivo pra morrer
todos os segundos do dia
So, fuck off!
sexta-feira, 31 de julho de 2009
OLHOS ESFUMAÇADOS DE NEGRO
e já poderia reconhecer
nas sombras
os rostos que eu deveria lembrar
e estranhamente não os recordo
pois não posso dizer
por onde andei
Maybe
I have a secret
quarta-feira, 29 de julho de 2009
QUANDO NÃO PAROU MAIS DE CHOVER
O céu deseja a morte
em trovoadas extensas
clarões que apenas fazem
a noite mais negra
e meu pesadelo
é você que me persegue
só, me resta a aflição
enquanto fico trancada
na pequena sala
grilhões pesados na imensa porta
eu me escondo de você
claustrofóbica
e a solidão entope minha boca
de um bolo azedo
you´re so sour, baby
Mas eu acredito estar salva
domingo, 12 de julho de 2009
OUTRA PRA VOCÊ (Ou só porque eu não te conheço)
They do
Juntos
Festas
Supermercados
Sorvetes no quiosque do shopping
Filhos mal educados
Vícios insuficientes
Cafeína, cocaína, codeína
Não exatamente nessa ordem
Existe a sua falta
A ausência
A solidão por entre a gente
Do poeta de muito tempo atrás
Eu me acho tão diferente
But I do too
Versos de rimas primárias
Precárias
Tão comum
Mente
quarta-feira, 8 de julho de 2009
RASO OU PROFUNDO DEMAIS
Tinha um pessoal cheirando pó dentro de um carro na frente do bar. Creio que dois caras e uma mulher. Debrucei o meu tronco no muro da varanda, ficando praticamente dependurado, e falei pra eles:
- Ei, turma, aí não!
- O quê?! – um dos caras gritou, o que estava do lado do carona.
- Vocês não podem fazer isso aí, não! – respondi.
- Ah, porra, aqui é uma rua, um lugar público!
- Público, o cacete! Vocês estão no passeio do meu bar, seus filhos da puta! – disse, já imaginando a merda que estava por vir.
Então eles conversaram um pouco, depois ligaram o carro e foram embora. Um pouco de bom senso, pelo menos. Voltei para o balcão e preparei um conhaque com gelo e refrigerante para Adib. Adib também fazia das suas, mas usava o banheiro e não deixava pistas por lá – o tipo do freqüentador que se preocupa com as regras do lugar. Isso conta bastante. Ele pegou o copo de conhaque com refrigerante e deu dois bons goles. Em seguida acendeu um Hollywood e ficou olhando pra mim.
- Você ta preocupado com alguma coisa.
- Eu?
- É. Ta com uma cara diferente. Se for o meu débito, terça sai um dinheiro.
- Não é nada disso.
- É o meu entra e sai do banheiro?
- Não.
- Hum.
Tirei as cervejas que estavam na parte de cima do freezer e passei para a geladeira. Quatro ou cinco haviam empedrado. O movimento estava fraco. De qualquer maneira, coloquei quatro quiches para assar. Adib falava sobre alguém que aprontara com ele no bar do italiano na noite passada. Ou talvez na noite retrasada. Ele falava daquele jeito enrolado dele, quando Deise apareceu. Vinha de um show de pagode. O show tinha sido uma porcaria, choveu e tudo, mas ela ainda sorria sem parar. Em determinado momento, os dois foram para a varanda, fumaram um cigarro e então Deise passou para o banheiro. Dois minutos depois, saiu com aquela cara de quem acabou de ser pega roubando. Engraçado, mas ao mesmo tempo triste.
- Me dá uma tequila.
Coloquei a tequila e ela virou de uma vez.
- Agora, uma cerveja.
Sentaram-se do outro lado do balcão e Adib voltou a falar sobre o cara que aprontara com ele. Uma estória confusa, parece que o cara roubou Adib de alguma forma e depois fingiu que nada tinha acontecido. Eu não consegui acompanhar. Há uns dois ou três dias me sentia um tanto distanciado de tudo e, ao mesmo tempo, incomodado, sem no entanto entender o porquê daquilo. Deixei os dois no balcão e fui até a varanda fumar um cigarro. O carro com os dois sujeitos e a mulher voltara e estava estacionado no mesmo lugar de antes. Eu via através da sombra o movimento que faziam. Por mais que a rua estivesse sem fluxo, a qualquer instante poderia aparecer alguém.
- Ei, caras! Ei!!!!
- Ah, porra, vai tomar conta da sua vida! – gritou um deles.
No mesmo instante desci, peguei a pedra que escorava a porta e fui em direção ao carro. Estava enfurecido – muito pela prepotência do mundo, outro tanto por aquele mal estar que eu vinha sentindo. Enquanto caminhava, ouvi alguém gritar “Puta merda, aquele maluco ta vindo com uma pedra pra cá!”, então os faróis se acenderam e o carro de repente saiu cantando pneus.
Então eu estava do outro lado da rua, encostado à mureta. As luzes dos barcos deslizavam lá embaixo, no mar, e a luz do farol às vezes iluminava o seu caminho. Cada coisa que a gente tem que passar, eu pensei. E a depender do dia, parece que tudo ganha proporções diferentes, tudo torna-se raso ou profundo demais. Que invenção essa, o homem. O homem e o mundo que ele inventou.
Quando voltei, não encontrei Adib nem Deise. Imaginei que estivessem lá em cima e não gostei da idéia: o lugar de fazer certas coisas era o banheiro, era lá que se dava descarga, que se lavava as mãos, que se evitava os flagras. Fui, me esforçando para não fazer barulho, ver o que eles faziam. Olhei para o palco e nenhum sinal. Quando me virei para o outro lado, vi Deise debruçada na janela e Adib pegando-a por trás, pela cintura, e fazendo aquele movimento de ir e vir. Os dois embalados pelas cafungadas, pelo álcool e pela necessidade de sentir, a luz do poste em frente batendo nos dois e criando reflexos bonitos, imagens cheias de vida e de cor. Às vezes ele aumentava o ritmo e ela gemia baixinho, jogando a cabeça para trás.
Voltei para o balcão, coloquei um disco pra tocar e tirei as quiches do forno. Eram 12:47 de uma noite fria e sem futuro algum. Talvez eu devesse contratar alguém, pensei. Ou viajar. Peguei o copo de conhaque com refrigerante de Adib e virei.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
LA REVANCHA DEL TANGO



quarta-feira, 1 de julho de 2009
CAFEINA + COMPRIMIDOS
dormir
sonho acordada
novamente
pela 1ª vez
é quando vejo
do alto do viaduto
os carros passarem
e acredito poder-voar
é uma esperança bem assim
que carrego no peito
do beija-flor
asmático
quarta-feira, 24 de junho de 2009
14:hs | Tarde
terça-feira, 9 de junho de 2009
ARTISTA
- ninguém sabe o que já sofri.
- Isso é uma música? – perguntei.
- na minha concepção, tudo pode ser música, tudo pode ser arte, tudo pode ser vida...
Ele se diz pintor, músico, ator e escritor, além de produtor freelancer. Pelo que sei, faz tempo que não cria nada, mas parece que andar entre artistas, de alguma forma, o conserva ou o faz artista também: volta e meia organiza festinhas com a nata da intelectualidade numa das casas que herdou da família. Quando fica cheio do goró, faz discursos, quase palestras, no fundo um blablablá interminável sobre a verdadeira essência da vida ou sobre a necessidade de ser e de se sentir livre ou sobre como as almas evoluídas sofrem nas mãos do mundo insensível, injusto e burguês. Um clichezão daqueles, sobretudo quando se leva em conta que caco não é nada daquilo que apregoa. O pior é saber que sempre tem um ou outro caindo na sua conversa de injustiçado: de uma maneira um tanto quanto inexplicável, ele consegue criar toda uma espécie de aura ao redor de si mesmo e convence meio mundo de gente de que de fato é um batalhador e que manda muito bem. E assim vai levando, empinando a bunda no meu sofá, fazendo dramas, soltando umas bufas e se sentindo “iluminado”.
- caco, e aquele projeto do jornal?
- desisti; sobrava todo o trabalho pra mim.neguinho tá pensando o quê? Sou artista, porra, não tenho que ralar, não!
- mas a turma todo não era de artistas também?
- nada. Tudo burguês, gente que recebe subsídio de parente.
- e você não?
- que conversa é essa, rapaz? Ih...
Ficou me olhando de lado e então levantou um pouco o quadril, provavelmente soltando outra bufa. Orgulhoso que só. Depois começou a falar sobre um projeto em andamento, um dos bons desta vez. Parecia bem confiante. Eu sabia, no entanto, que esta confiança, com o passar dos dias, diminuiria, e que tanto este como qualquer outro projeto, se dependessem unicamente do esforço e da capacidade dele, nunca dariam em nada( caco precisa apenas do sol das praias, da ebriedade das noites, da leveza que somente o descomprometimento pode trazer), assim como também sabia que logo após a janta, antes de lavar os pratos, ele viria com uma meia desculpa qualquer, talvez um encontro com algum ator, diretor ou um novo talento musical, talvez uma dor de cabeça ou esporão ou mesmo um desses afazeres fictícios que de tanto repetir acabam virando realidade, e sairia apressado como alguém que está prestes a pegar um trem, salvar o mundo ou qualquer coisa assim. E foi justamente o que vi: ele descendo de dois em dois os degraus da escada, os cabelos, bem tratados, balançando no ar, a pele morena queimada de sol e uma mancha marrom, quase imperceptível, nos fundilhos da calça que alguém, o ano passado, trouxe especialmente pra ele do Perú.
r.m.
terça-feira, 2 de junho de 2009
Quando as coisas simplesmente não têm explicação
Tenho me perdido em pensamentos do micro para o macro, como, por exemplo, o jeito único que observo a luminosidade dessa tarde gelada e como essa beleza apenas é um composto químico e físico que formam tanto a matéria do céu quanto a que pertence ao meu corpo.
Tenho uma experiência espiritual-racional e tudo fica tão grandemente simples, que os meus problemas cotidianos e humanos mal cabem na sessão de terapia. Aliás, a última sessão foi uma grande conversa sobre o absurdo de se compreender o mesmo objeto analisado sob diferentes perspectivas. Daí que eu penso que o "serumanu" se perdeu mesmo. Afinal, ele valora mais o seu do que o outro, mesmo quando o foco é o outro.
E daí,claro, conversando com minha mãe identifico que a filosofia é uma ciência do pensamento, of course, e por isso mesmo absolutamente distante da praxis. Certo é que alguns filósofos foram seus pensamentos - e vice-versa, porém, acreditar na filosofia como uma realidade é uma bobagem utópica cheia de ingenuidade e paixão.
A filosofia é bem um instrumento, o meio para um fim individual, não o fim em si mesma.
Tá aí a grande arte da parada. É essa transmutação do macro para o micro, do conhecimento para a experiência, e assim vai... .
sábado, 9 de maio de 2009
DO FIM
De uma vez, SAI!
Sim, e bata a porta
Da rua encha a boca
E grite: Puta!
Todos já ouviram menos
Do mundo
E mais do desespero
Mas, vá e não volte
Que seus passos sejam ecos
Do amor, sussurros dos lençóis
Que o quente de seus beijos
Apenas uma lembrança antiga
Como o alento de seu sorriso
Apenas um esboço no tempo perdido
E na morte das tardes
As mãos se buscavam cegas
Para entender que de dois se era um
Mas agora que tudo é partido,
Quando nos partimos,
Você está partindo
Os pratos foram na parede partidos
Eu fiquei aqui parte-ida
Porque você não vai
De uma vez, SAI!
Sim, e bata a porta
Não volte
Nunca mais me toque
Fique longe
Do corpo e da mente
Nunca existiu "a gente"
Ah! Me deixe vazia
Sem lembranças
Sem despedidas
Idas
Parte
Nossas
Vidas
Vai!
quinta-feira, 30 de abril de 2009
ELEGIA A SOLIDÃO MODERNA
E eu aqui pensando, não gosto mesmo de coisa muito pessoal. Em primeira pessoa só falo de outros, mesmo que eus, ainda assim não é aquele de hoje.
Agora se isso faço – veja o primeiro tempo verbal conjugado - porque quero é meter meu bedelho nesse mundo estranho. Eu vou até sentir falta do sertanejo brega que canta a saudade “do seu amor quentinho”, ou aquele papo-cabeça canção de quem se sente sozinho.
Tudo pra dizer que eu quero mesmo é cada vez mais enlouquecer e me enfiar numa caverna com poucas coisas e jogar minha própria merda no chato que ousar passar por lá com toda essa parafernália moderna.
É Orkut, Twitter, celular-computador, computador-casa, casa-orkut, fotolog-amigos, eu já não entendo mais nada, essa coisa dessa gente falar tanto sobre coisa alguma. E toda essa especulação sobre a vida alheia só poderia tapar dentro de cada um, sei lá, quem sabe, algo do tamanho de um buraco negro existencial.
E a cada século o ser humano dá mais um grande passo na sua eterna cagada de não se conformar com sua própria insignificância perante o Universo e a magnitude da Vida, e decide criar alguma brincadeira infantil e coletiva para distrair-se da consciência individual e cruel.
Eu, como sempre digo, – e nem eu sei quem é essa aí que Vos fala – prefiro é ficar mesmo na minha vidinha besta pra caraleo, sem muitas coisas legais pra contar, sem muito me enfeitar e sem aprender a fazer bico.
E também, sem ser uma pra contar.
domingo, 19 de abril de 2009
APATIA A CABO
do canal pago
Assisto o mundo
Aperto a função mudo
e tudo permanece ruindo
em estrondoso
SILÊNCIO!
sábado, 11 de abril de 2009
TEMPOS MUITO DEMAIS MODERNOS
segunda-feira, 23 de março de 2009
... O retorno do sentir
E a distância da sua existência me ensinou a solidão maior. Por entre todas as pessoas e lugares, estou encarcerada pelas lembranças do que acredito que foi bom. Eu nem bem sei se é real toda essa falta de você. Eu só sinto essa enorme muralha que emerge do chão e cresce sobre o mundo e não sou capaz de sorrir de dentro. Eu poderia te carregar para algum lugar melhor longe dessa gente feia e sem graça. Eu gostaria de nos proteger desse final de tudo lento e decadente dessa cidade. Eu não compreendo muitas coisas, e cada vez mais a sabedoria não me pertence. E tudo é esse sentimento estranho, como se eu fosse capaz de voar, mas meus pés estivessem atados ao chão.
E só me resta então a angústia e esse destino cego, essa vida sem saber, aguardar o acontecimento maior, o evento predestinado, como um novo nascimento em um corpo já muito antigo. Com grandes asas leves alçar vôo, sentir a poeira do chão subir, e buscar você lá de cima. E fugir para alguma terra alta, distante disso tudo, com o horizonte dolorido e livre, sentiremos o aperto no peito que só a felicidade transbordante da esperança real é capaz de proporcionar.
E eu só peço, veja bem, é tão pouco, meu Deus, é quase nada, que você me conforte e em silêncio compreenda o incompreensível junto de mim com todas as palavras que só o silêncio maior produz.
“Veja só - suspira uma brisa que leva levemente os cabelos e arrepia calmamente na alma – estamos no coração da vida, soerguidos pelo mistério, nada aguardamos, além dessa sensação de algo que está realmente em seu lugar. ”
Agora estou de volta com minha caixa de bagunças demasiadas humanas: www.caixaderascunho.blogspot.com
terça-feira, 3 de março de 2009
Big Mess
Eu nem sei bem como
Tudo se perdeu
E gostaria que alguém explicasse
Uma formula secreta
Que resgatasse
Os momentos mágicos
Algo de bom
Entre nós
E agora distantes
Talvez eu acredite
Que os detalhes
Não fossem importantes
E só restasse
Os finais de tarde
As alegrias
Esperanças
De uma vida mais
Completa
Que não soubemos
Levar adiante
Será que há
Sabedoria no mundo
Para dizer
Eu e você
O quê deveria ser
Melhor?
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Todo mundo fica triste quando chove
Fecho a janela e o fim de tarde abafado cola a roupa em meu corpo. Acendo um cigarro, e penso que parei de fumar "pero no mucho". Sou a Deusa do Pero no Mucholand. Feliz “pero no mucho”, trabalhando “pero no mucho”, satisfeita “pero no mucho”, ainda te amo “pero no mucho”.
Por aí vai, e começa a chuva, despenca de uma vez, os prédios encobertos pela névoa branca.
A fumaça quente do cigarro, o calor úmido pegajoso em meu corpo, os pensamento lentos me enterrando e eu sem forças para jogar a terra fora.
É isso, quando eu olho a chuva imagino todas as pessoas do mundo que por um segundo olham a água descendo para a terra e sentem-se mais sós, infelizes, ou simplesmente perdidas.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
balcão
- ainda gosto dele. Mais até do que antes.
O nome disso, pensei em dizer, é cantina do vale. mas acabei não dizendo.
Ela colocou uma dose, bebeu, em seguida encheu o copo outra vez. Olhou para mim, fez que ia dizer algo, mas então sorriu alto, muito alto, e desceu as escadas, o cabelo caindo de lado, o andar meio trôpego e um cuidado enorme com o copo de vinho que ia levando.
RM
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Eu quero voltar mas o mundo não deixa
Eu ando cansada e sei que não faço nada. Eu gosto da solidão e da minhas peculiaridades que me tornam um ser recôndito e estranho. Eu ando pelas ruas do Centro e não procuro respostas.
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
depois que a Lúcia morreu
Roberto, meu querido, acabei de chegar de salvador. Não sei o que acontece, mas a cada dia me sinto mais estranho naquela cidade. Muita gente, muitos carros, muito barulho, e tudo é tão caro, tão longe...desta vez, fui para dar um jeito na situação da Melissa. Na verdade, fui para ver como é que ela tá mesmo. Parece que se desentendeu com a dona do pensionato em que está morando e cismou que não quer mais ficar por lá. Coisas da sua afilhada, você conhece bem. De uma hora pra outra,k sem avisar, ficou cheia de opiniões. Os filhos crescem, né. De qualquer forma, se a Lúcia estivesse viva, garanto que situações assim não aconteceriam. Consegui um outro lugar, mais caro um pouco. Falta ela dar uma olhada pra ver se aprova. Talvez na próxima semana. Quase não tem tempo, a coitada, vive na casa de colegas, fazendo trabalhos. Aproveitei que estava na capital, como a gente falava antigamente, e fiz uns exames. Recebo pelo correio quando estiverem prontos. Modernidades. Desconfio que não estou muito mal, só essa tosse que incomoda, mas é sempre bom dar uma checada. Bom, tô ligando mesmo é pra lembrar daquele nosso esquema de domingo que vem. Tá de pé ainda?
Dia 15/10
Roberto, você não imagina quem apareceu aqui em casa hoje. Dona Miriam. Está bem acabadinha, mas a memória continua boa. Falou de mamãe, dos lençóis de retalhos que as duas faziam na varanda da nossa casa e de como nós aprontávamos naquela época. Está morando com uma filha, acho que a mais nova, Soraya. Encontrei com as duas no supermercado. Não esperava que aparecesse. Mas talvez tenha sido bom. Gosto das reminiscências. Quando ia embora, me abraçou e disse que eu estava a cara de papai. Achei estranho. Sempre me pareci mais com mamãe, era o que diziam. Não importa. Estou aqui me preparando para para ver o jogo do Brasil na tv. Depois que mudaram aquele zagueiro, parece que a coisa melhorou. Mas ainda não tô satisfeito. Hoje em dia parece que jogador não tem mais amor à camisa. E o esquema de domingo? Dá um retorno.
Dia 17/10
Roberto, sou eu. Tenho pensado muito nessa coisa de estar parecido com papai. Mesmo que eu parecesse mais com mamãe quando novo, é possível que, com o passar dos anos, certas feições que herdei de papai tenham se acentuado. Há muitos casos assim. Sei mesmo de uma família que, quanto mais o tempo passa, mais eles se parecem. Fiquei boa parte da manhã de frente pro espelho. Acho que meus olhos são mais puxados agora. Talvez seja problema de vista, não sei. Você deve estar achando essa conversa meio estranha, mas realmente estou convencido de que alguma mudança aconteceu. O que é que você acha? Me liga aí, porra...
Dia 18/10
Roberto, meu irmão, parece que nunca te encontro em casa, por onde é que anda? Tenho uns assuntos para conversar, saber sua opinião. A Melissa ligou ontem de noite. Diz que não quer mais ir para o pensionato que arranjei, vai dividir um apartamento com mais duas amigas. Tentei explicar que a situação está meio complicada, que já tinha a mensalidade da faculdade, mas ela fez um drama enorme, chegou a dizer que eu não a amava e que se a Lúcia estivesse viva iria entendê-la. Eu sei que não, mas não quis discutir. Vou me apertar, mas fazer o quê, não é mesmo? Coisas da vida. Por falar em aperto, viu o jogo do Brasil? Porcaria de time aquele. Se pudesse, mandaria todo mundo pro oriente, lá praquele lugar onde se toma chicotada quando se joga mal. Brincadeira, há,há... mas que a gente passa raiva, isso passa. E pensar que quando éramos moleques tínhamos um orgulho danado dessa camisa. Olha, sobre o esquema de amanhã, queria um retorno seu pra dizer o que é preciso comprar. Tenho pensado muito nessa viagem, mas nunca fui bom de organizar coisas, você sabe, fico apenas imaginando a gente lá, pescando robalo no cais, abrindo a casa velha, olhando as coisas que ficaram e sentando na varanda pra tomar uma cerveja e olhar o rio. Sempre fui meio sentimental, saudosista, você sabe, e depois que a Lúcia morreu fiquei um tanto sem chão. Difícil explicar assim. Sua natureza sempre foi diferente da minha, mais forte, auto-suficiente. Mas não quero te encher com os meus problemas. No domingo, iremos lá, será um dia apenas para matar a saudade. Vai ser ótimo, rapaz. Me liga tão logo chegue em casa, ta? Valeu... ah, outra coisa: Dona Miriam veio ontem outra vez, tocou a campainha durante uns cinco minutos, mas eu não atendi. Não sei porquê. O problema foi segurar a vontade de tossir. Coloquei uma toalha no rosto, mas achei que ela, mesmo assim, estava escutando. Fiquei sem saber se escutou realmente. Se encontrá-la no supermercado, digo que estava com uma gripe ou qualquer coisa do tipo. Bom, era isso. Se puder, dá um retorno. Mas acho que posso ir adiantando alguns detalhes antes de você ligar...
Rodrigo Melo
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Des-geração
Cigarros, aos montes, atolavam os cinzeiros, assim como os restos de cerveja. Estavam à disposição de algum desesperado que ousasse se utilizar dos restos mortais de noites retrasadas e cansadas. Podia, sim, voltar para a cama e rezar para acordar no paraíso muçulmano de mulheres com olhos rasgados e tez bronzeada, oferecendo-lhe orgasmos eternos. Mas ele era um filho da puta ocidental, de modo que a pós-vida seria uma coisa chata e tediosa com o soundtrack da Enya com diarréia cósmica. Passaria a eternidade dialogando com anjos de pintos pequenos e roliços que nem um viado ousaria utilizar.
Queria telefonar para algum S.O.S. aos suicidas, mais um dos serviços indispensáveis a vida moderna, mas o telefone havia sido cortado. Afinal, ou se bebe ou se paga o telefone. No caso a escolha é óbvia.
Se voltasse para a casa dos seus pais poderia tomar um banho quente com sabonete perfumado, almoçar com talheres em um prato, e arrotar a abundância que ele nunca ousara procurar nos classificados dos jornais. Mas lembrou do que vira no espelho e desistiu, sua mãe sofreria mais um desgosto e enfartaria. Não suportava o olhar de frustração da sua mãe: “Qual foi meu erro?”. Do princípio: Casar com aquele babaca do meu pai que fica com a pança na carroceria do carro aos domingos, lavando os louros da vida burguesa. Depois, ter um filho e achar que ele poderia ser diferente dos demais fracassados dos rebentos vizinhos. Pois, então, mamãe, o seu erro foi acreditar na glória da esperança secular.
Sentiu o gosto do bife a role, mas desistiu, não poderia corroborar aquilo que a senhora de grandes tetas esparramadas sabia no seu íntimo e infinito feminino. As mulheres eram foda. Por isso elas batiam a porta e quebravam pratos na parede. Há até certa histeria, mas ele reagiria da mesma forma se não tivesse a cabeça de baixo tão importante em detrimento de sua sinapse. Achou um livro abandonado ao lado do vaso sanitário que alguém havia dado a ele. Mas os óculos não estavam lá, assim adiaria para o próximo século a leitura de mais uma relíquia da humanidade.
Se ainda tivesse alguma dignidade, enfiaria a cabeça no fogão e asfixiaria. Mas não tinha gás. Pôrra, que merda que ele era afinal?
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
CATACUMBA
Acordei com mais sono, sentei no computador e não tinhas histórias para contar. Vazia, oca, minha mente é do tamanho de comprimidos que engulo sem muito questionar. Eu só tenho que me adaptar e controlar.
Controle, acho que é tudo isso.
Então, olhei para a minha rosa ainda botão, caída, nem vivia ainda e já de cabeça baixa desistia. Heroicamente desliguei as luzes abri bem aos poucos as cortinas. Decidi que mesmo se for a tristeza de viver descontralada e fora dos padrões, única e isolada em um casulo solitário, a existência daquela flor ainda merecia vez. Seremos então, as duas, de cabeça erguida, do jeito que se é.
Nem sempre nós salvamos sozinhas.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Mais devagar, ou não.
Queridos o restante do texto está lá no www.blonicas.zip.net
sábado, 6 de setembro de 2008
eles bem que me avisaram
- Tem cigarro? – perguntou.
Tirei um cigarro do bolso, puxei o isqueiro e passei para ele. Seus olhos fixaram- se na chama. Era um sujeito estranho, talvez vindo de longe, trazendo consigo a poeira e algo já não muito esperado. As surpresas da vida, quem sabe. Minha mente, de alguma forma, fora sempre fértil demais.
- Não queria ser fumante... – ele disse -... mas alguns problemas, compreende?
- Hum-hum - respondi.
- Alguns probleminhas aí... – repetiu.
Ficou olhando a sala e tragando o cigarro, a mão tremendo no caminho entre a boca e o cinzeiro.
- E em que posso ajudar? – perguntei.
- Depende – ele disse. - Você trabalha com o quê mesmo? Não li a plaquinha na entrada, desculpe.
- Sou corretor de imóveis. Rômulo Antunes. Tem na placa.
- Entendo, vende carros, casas...
- Casas.
- Ah... E alguma dessas que você vende é de frente pro mar? Sempre quis ter uma casa de frente pro mar. Uma varanda, as pessoas tomando sol lá embaixo... Se algo desse errado, pegaria um barco e viajaria pelo mundo... Que acha?
- Não tenho nenhuma casa assim, infelizmente. Só apartamentos no subúrbio, kitinetes.
- Mas eu me interesso por kitinetes também. Coloco para alugar. Uma outra opção de renda. Já estou cansado da vida que levo...
- Muita gente passa por isso.
- Aposto que a maioria não passa pelas coisas que tenho que passar, acredite. Mas, então,... O que eu teria de fazer, ou não fazer, para possuir uma kitinete dessas? Estou disposto a negociar.
Achei esquisito aquele papo, ainda por cima aquele tique que tinha, às vezes mais forte, demorando um tempo maior para acabar, o rosto se contorcendo como o rosto de um homem que luta contra algo muito maior do que ele.
- Posso mostrar fotos e os preços, no caso de haver interesse.
Ele sorriu estranhamente. Talvez fosse mesmo louco, pensei.
- Você está dificultando as coisas, Alberto. Não me importam os preços.
- Não sou esse Alberto, já falei.
- É claro que não é.
Não era, de fato, uma figura inteiramente estranha, mas isso por seu lado não significava muita coisa: milhares de pessoas são parecidas umas com as outras, há ainda a possibilidade dos jornais, da internet...
- Olha, eu nunca te vi antes. Com todo respeito, o senhor é um completo estranho para mim.Qual o seu nome mesmo? – falei, já um tanto farto do meu tempo perdido.
- Viu, sim, Alberto, apenas não se lembra mais – falou, mirando-me nos olhos, como se tivesse absoluta certeza daquilo.
- Qual o seu nome? – perguntei outra vez.
Ele virou- se e olhou pela janela. Não havia nada lá fora, exceto a chuva e o vulto dos prédios do centro.
- Firmino – falou, embora eu não tivesse acreditado.
- Não conheço nenhum Firmino. Você se enganou de sala. Ou de prédio... Posso te provar...
Puxei a minha identidade do bolso e mostrei para ele. Era nova, eu havia tirado-a há cerca de dois meses. Ele olhou- a rapidamente, então me devolveu. A cinza do cigarro, entre os seus dedos, fazia uma curva no ar.
- Eles bem que me avisaram para ir com calma.
- Eles quem?
- Você sabe...
- Não sei!
- É claro que sabe, Alberto.
Eu me aborrecia cada vez mais com aquela situação – o que fazer para se viver em paz? Correr e chamar o segurança? Pular sobre a mesa e, antes que ele reagisse, acertar uma direita em seu queixo? Talvez estivesse armado. Tudo era possível na minha imaginação.
Enquanto eu pensava sobre o que fazer, o telefone repentinamente tocou. Era alguém interessado num terreno. Abaixei- me e abri a gaveta, à procura da pasta e dos papéis com as informações dos imóveis. Nunca fui muito organizado com gavetas e papéis. Quando levantei-me novamente, ele já não estava mais lá.
Tudo aconteceu muito rapidamente. Não havia bilhete, a ponta do cigarro que ele estava fumando, nada. Por um instante imaginei que eu é que poderia estar louco.
Então levantei-me, peguei algumas coisas que precisava e fui para o apartamento que alugara ali perto. Fiz uma pequena mala, tomei banho e em poucos minutos desci. Não me importava quem ele era ou se o seu nome era mesmo aquele. Eu teria que fugir outra vez.
Rodrigo Melo
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
APARTAMENTO 12
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
A vida não é um livro de capa colorida
Te conto uma coisa maluca, parei o carro na banca de flores da Dr. Arnaldo e lá eu pedi gérberas amarelas que eu ganhei ainda decoradas. O cara fez do coração. Acho que ele viu lá dentro alguma coisa triste que ele também tem. E desse jeito ele me ajudou e não se sentiu tão só nessa confusão de mundo
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
LA REVANCHE DEL TANGO
Em breve sairá pela Mojo Books (http://www.mojobooks.com.br/), terça-feira, 26 de agosto de 2008
LICENÇA PARA SER CLICHÊ
Tempos estranhos por aqui. Prozac ou Gugu, uma felicidade idiota nos sorrisos clareados. Conversas de elevador sufocam de perfume francês as sete da manhã. Espremida, minha vida rende piadas no bar e linhas irônicas. Há algo de fantástico nisso, eu acho, me disseram. Nem lembro se foi este ano. Tenho uma pilha de livros para ler e não saio dos sebos da redondeza. Acho tudo muito barato e bonito, basta andar por aí para se ver. Se ao menos eu gostasse de colocar pôsteres no quarto...Mas não, até as fotos eu tirei.
Esquecendo de esquecer, eu lembro cada dia mais. Eu posso dizer “Ô gente chata ducaralho”, mas prefiro pedir uma cerveja e sorrir. Abraço algumas pessoas e penso se elas podem estar realmente vivas fedendo daquele jeito. Tenho milhares de opções mas fico só com três. E ainda quero me livrar destas. Passo o ponto.
terça-feira, 19 de agosto de 2008
A OBVIEDADE DO AMOR
Queridos, o restante do conto está todinho no novo endereço que publico, passem por lá: www.blonicas.zip.net
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
PAPEL CARBONO
E se você não as compreendesse, eu as imprimiria através de beijos de brasas e fome por todo seu corpo.
Quem sabe tiraria você para dançar aquela música sussurrada e profana que percorre as esquinas e que somente nós ouviríamos.
Eu pertenceria a você dissolvida em seu sangue, em seu gozo e em sua saliva.
E dali eu nasceria todo dia como o sorriso que você marcou no carbono da minha emoção. E saberia.
Eu derramarei uma lágrima pesada se isto, daquelas de olho que não quer fechar. De algo que não deseja doer.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
ECO
- Algoa – o homem murmurou, a voz rouca, quase não saindo.
Edgar andou até a porta. Num canto, um balde repleto de um líquido de cor marrom que ele mesmo não sabia dizer o que era. Segurou o balde e, aproximando-se do homem, jogou todo o líquido no rosto dele. Mesmo amarrado, o outro contorceu-se e gritou coisas sem sentido, girando a cabeça desesperadamente para os lados, e Edgar puxou uma outra cadeira e sentou-se de frente para ele.
- Quer falar? Já não basta? – disse.
Havia sangue coagulado no chão e também por todo aquele rosto disforme, o corpo já muito magro feito um faquir.
- Você pode sair daqui quando quiser, Jorge, só precisa cooperar um pouco. Consegue entender isso?
Jorge não respondeu. Não sabia onde estava, mas imaginava quem eram aqueles homens que há dias lhe faziam perguntas. Lembrou-se da mulher, dos cuidados que ela lhe pedia para ter e que ele não tivera.
- Jorge, você só precisa dizer um nome e te deixamos em paz – Edgar disse, acendendo outro cigarro.
As mãos de Jorge, antes tão bonitas, as mãos de um Jovem sonhador, tinham agora um aspecto estranho, pareciam um pouco cinzas, um pouco amarelas, os nós dos dedos saltando, tão grandes.
- laur... – ele disse.
- Como? Edgar levantou-se, aproximando o seu rosto ao do outro.
- Lauro... – Jorge falou, tremendo de frio e de fome, de dor e de medo também, mas sobretudo pela fraqueza que jamais imaginara ter.
- Lauro de quê? Diz, porra, Lauro de quê?!
-... Diniz...
Então Edgar levantou-se,seus olhos brilhando feito imensas constelações, e imediatamente tirou o celular do bolso e discou um número.
- Oi. Consegui o nome do canalha... Sim... Lauro Diniz, sabe quem é?... Bom...Não, não, pode fazer. Qualquer coisa você me liga. Ta.
Guardou o telefone e encarou o outro sentado na cadeira. Aquele cheiro no ar continuava, forte, ruim, o cheiro de quem não presta, pensou. Levou as mãos às costas e puxou o taurus. Olhou-o por um instante – ganhara-o há alguns anos, presente de um superior. Então virou-se e apontou a arma para a cabeça de Jorge e deu um tiro. O barulho ecoou pela sala, mas depois de alguns segundos o silêncio predominou: ficou apenas aquele eco distante, de algo feito a quilômetros dali. Ninguém apareceria, de qualquer forma. Quase sorriu ao pensar nisso. Em seguida olhou para o relógio: eram quinze para as cinco da tarde. Guardou o taurus, abriu a porta da sala e voltou pelo mesmo corredor - a lâmpada piscando uma, duas, três vezes, de repente acendendo-se num clarão, para logo depois voltar a piscar outra vez.
Rodrigo Melo
BUNDAS SIAMESAS
(Uma odisséia sobre mulheres de seios fartos e ancas largas
Parte I
Um dia quente, úmido, abafado e viscoso, a roupa colava no corpo. Até as paredes suavam. Cássia Alessandra, enorme, deitada na cama observava a chuva se formando ao longe. A camisola de gestante grudava no corpo. Ela fechou os olhos e rezou para que suas bebês resolvessem nascer logo. Mesmo que fosse naquele dia, e o dilúvio que ameaçava a terra caísse e levasse todas as casas da rua. Por bem, ou por mal, já não agüentava mais a gestação pesada de duas crianças. Olhou seu corpo disforme e inchado, e da maneira que estava recostada no travesseiro não via sequer o dedão do pé. Apenas enxergava a imensa lua de sua barriga. Estendeu os braços e sentiu o suor escorrer de sua axila, alcançou o copo d água sobre o criado-mudo. Esse esforço foi o suficiente para que a bolsa rompesse e inundasse o colchão. Adelino, o marido, saiu correndo em busca de sua mulher que berrava “vai nascer, vai nascer”, largando a TV ligada e o final do campeonato brasileiro.
No hospital, depois de anestesia, choro e desmaios, cortaram a barriga para de lá tirarem o que chamam na ciência bizarra de xifópagas. Se não bastassem gêmeas idênticas, ainda eram grudadas. E o mais curioso é que as bebês uniam-se pelas nádegas. Melhor dizendo, cada uma tinha sua nádega, isto é, cada uma tinha seu ânus, porém na altura da carne que forma a protuberância chamada “bunda”, quase nas costas, elas estavam grudadinhas. Seu Adelino rezou e pediu perdão; Cássia Alessandra fez promessa. As bebês passaram por cinco minutos no jornal da noite na TV, a mãe chorou e o pai apenas pediu ajuda. O Bairro comovido fez novena e procissão. No final, Karla Adriana e Keila Cristina – já registradas no cartório da região - foram separadas e a nádega comum foi igualmente divida.
O pai muito preocupado com toda a repercussão, logo tratou de estabelecer medidas que atenuassem o trauma que toda a situação poderia infligir em suas meninas. Assim, desde cedo, Adelino colocava sapatos pesados – que ele próprio criara em sua oficina - para que as meninas forçassem a musculatura dos glúteos de forma que essa se hiper-desenvolvesse. Adelino sabia bem como mulheres ‘sem bunda’ eram preteridas na sociedade. Desta maneira, utilizou de todos os artifícios para que nunca alguém na rua apontasse para suas meninas e as ridicularizasse por compartilharem a mesma bunda, pouco restando então a cada uma.
As gêmeas bundanesas, as mulheres mais fartas e ancudas da história da cidade, estavam livres.
terça-feira, 15 de julho de 2008
Corredor e baratas numa noite insone
Apartamento número 12. Meia noite e trinta minutos.
Sueli revira na cama, fuma e esquece as baratas.
domingo, 13 de julho de 2008
COLOSTRO
Eu, discreto num canto, enganava o sono e tentava me entrosar ao ambiente, embora desconfiado de que não possuía muito jeito pra esses momentos sociais. Meu talento, como se diz, sempre se resumiu a disfarçar o meu desapego e o meu distanciamento em relação às formalidades e/ou obrigações. Levei a vida na xinxa, na minha, como quem não entendeu o recado muito bem.
O caso, no entanto, é que minha esposa, por demais inteligente e carinhosa, estava a duas horas sentada na cadeira ao lado, com a barriga imensa, atenta a qualquer explicação. Eu a olhava com aqueles olhos miúdos e me achava um tanto culpado por não entender tudo o que a palestrante lá na frente dizia. Eram termos novos, difíceis pra mim, e eu me sentia como se estivesse numa reunião da NASA, todas aquelas mulheres sendo um pouco astrônomos ou astronautas geniais.
- E o colostro, alguém sabe dizer porquê é tão importante para o recém-nascido?
Ninguém sabia, mas também não tinha importância, era a hora do intervalo. Numa sala ao lado, sucos e salgadinhos esperavam pelas ansiosas e esfomeadas gestantes. Garçons distribuíam copos e guardanapos. Num canto, uma senhora cortava e colocava em pratos plásticos alguns pedaços de bolo. Tudo havia sido preparado com muito capricho, carinho. E então aqueles pingüins de batas e vestidos estufados aproximaram-se, curvaram-se sobre a mesa e em menos de cinco minutos não havia mais nada ali, apenas farelos e papel. A sala recendia a Hiroshima após a grande bomba. Coisas da vida. Num banco de madeira que ficava perto da mesa de sucos, minha esposa conversava com algumas novas amigas – pratinhos no colo, boca cheia, resto de queijo na ponta do nariz. Eu, discretamente, mordisquei uma empadinha de ricota, fria e quase sem gosto, numas de interagir.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Jukebox
Eu não sei, são tantos e todos os eventos na vida do ser humano. Tantas peças, nunca soube juntá-las. Nem sequer as minhas. Vide essa mala, sempre de lá pra cá, semi-aberta. Nada que carrego. Um vestido, uma sandália e uma caixinha de lembrar. E mesmo assim a mala parece tão pesada e pequena. Vai entender.
E você diante de mim, agora, segurando o copo de alma selada. Sem nada falar. Mas, o único mistério, é essa sombra maior que seu corpo projeta na minha existência. E eu fico aqui, apagada, protegendo a mala da gente estranha desse bar na estação de trem. É madrugada, fria, gelando a ponta do nariz e doendo no coração. Eu tento decifrar, mas apenas me perco em considerações pessoais. Sobre você, tudo é tão simples que dói. Então, só me resta fantasiar alguma teoria louca, sobre o cinza das nuvens de inverno. Aqueles dias sem fim de frio e pouca cor. Como essa vida que mora atrás do teu olhar. Nessa maldita madrugada.
Gasto um pouco de todo o dinheiro que tenho - contado para não morrer tão cedo – e coloco uma música na jukebox. Chamo você para dançar, não falo, apenas estendo a mão e te lambo com o olhar. Você me conforta no peito, e mexe as pernas muito devagar. Nós nos despedimos assim.
Sem encontrar o nosso passo.
domingo, 6 de julho de 2008
BURACO
E esse jeito inconseqüente, necessário demais quando se divide uma cama, um coração. Enquanto a chuva cai.
- Você sabe que não posso ter filhos, não sabe?
O tempo que corre e as coisas que a gente nunca sabe se deve sentir.
- Já tentei, fiz tratamento. Até simpatia. Você sabe, não é?
- Por que isso?
- Nunca consegui – diz, distraída, olhando, por cima dos ombros dele, um quadro que ganhou de alguém: o rosto forte, de mulher, uma certeza naquele olhar...
Então se encaram. Os olhos claros que ele tem, ela pensa, tão bonitos.
- Porquê ta perguntando isso agora?
- Não sei... Quando você acaba... Nunca acaba dentro de mim... Me sinto estranha.
O céu encoberto, por detrás das vidraças, cheio de nuvens e de ventos frios, um céu cor de chumbo, triste, o céu dos dois. Têm dias em que a gente se sente tão pequeno. Talvez essa natureza que herdei de meu pai, ela pensa, ele que sofre até hoje. Olha para as gotas no vidro da janela, uma juntando-se à outra e seguindo o caminho até o parapeito encharcado. Há tantas coisas para se fazer, mas ela não têm ânimo, vontade, lhe falta ainda fome, sono, algo para tapar o buraco que sente ter. Queria ser como ele é. Ou como ela, no quadro.
- Sabia? – pergunta outra vez, já sem esperanças.
Ele olha para o celular, confere as horas. Talvez sozinha ela esteja melhor. Nunca as entendeu muito bem, de qualquer maneira, e havia se acostumado a isso. Enquanto desce as escadas, acende um cigarro, pensando que mesmo antes de conhece-la já era um tanto assim.
sábado, 28 de junho de 2008
MAIS UM DIA, MAIS UMA, FOI, CONTINUA
domingo, 22 de junho de 2008
Choro seco
Eu ainda tenho algumas coisas para acreditar, mas as escondo de nós. Só isso me resta. Estou triste enquanto a chuva seca na janela, fumo um cigarro. Não falei com muita gente. Eu caminho por aí e finjo satisfação enquanto engulo comprimidos. Eu sorrio também, e me sinto mais triste quando isso acontece. Na maioria das vezes faço isso porque sei que as pessoas esperam. Elas esperam e eu dou. Tenho nojo.
Sinto falta e saudades de tudo que não conhecia. Hoje tudo é velho e sem motivo. Sei que é perda de tempo, que é mentira e irreal. Tanto a minha felicidade quanto a minha tristeza são meros frutos do meu teatro psicológico. Eu não vivo para isso, eu invento. Eu senti algo uma vez e guardei na gaveta junto com o bolor da sua existência.
Acredito que ainda vou aprender mais algumas coisas. Eu aprendo rápido e enjôo da lição também. Gosto de algumas pessoas e as deixo perto de mim. Elas sabem. E entendem, poucas.
Poucas são as virtudes, mas elas são. Eu me importo demais, eu penso demais. Eu vivo demais.
Eu tenho uma força maior que eu mesma que me sufoca até um grito sem voz. Eu chorava no escuro quando tudo morria ao meu redor. Mas ainda está guardado, em algum lugar. "Deus", estará por mim, então?
Ainda caminharei solitária e feliz na imensidão das formigas, hoje sonhei com elas. Hoje eu rezei por algo melhor. Eu quis acreditar por nós. Mas vejo a água descendo lenta pelo ralo da pia, escorrendo, escorrendo. A vida, a vida.
Algum badalar distante, eu vejo...Longe. Choro seco.
terça-feira, 17 de junho de 2008
Pereu de Aghbor
- Essa daí, ó – e apontava.
Às vezes chegava a escolher 4 ou 5 por noite. Não dava no couro, mas achava que a fama valia sempre mais do que os fatos em si, e assim era. Não raro, atribuíam-lhe uma paternidadezinha, que ele, de bom grado, assumia. Quando morreu, aos 58 anos, por conta de uma dor na barriga que era pior do que qualquer lâmina de espada adentrando a nossa carne, Pereu era o comandante supremo de centenas de vilas, dezenas de cidades, alguns continentes; possuía palácios suntuosos, castelos; quadros pintados pelos melhores artistas, e, dizem, era pai de 707 filhos, alguns de pele negra ou albina, os olhos puxados, os cabelos encrespando no cucurute. Quando seu corpo foi velado e passou pela última vez pelas ruas de Ághatars, dizem que a multidão cantava, enquanto abria caminho para o cortejo passar:
- Salve Pereu de Aghbor, guerreiro fodião e miscigenador!!!
quarta-feira, 11 de junho de 2008
Um homem de sorte
- Senhor Medina! Senhor Medina! – grita à senhora Wagner surgindo como se do nada.
Medina vira-se com desdém absoluto. Carrega sua grande carteira enfiada na cintura da calça como se fosse uma arma.
- O senhor pode vir até aqui?
Sim..., responde ele grudando a barriga no balcão.
- O senhor sabe. Não pode trazer prostitutas a esse motel. São regras da casa.
- Senhorita Wagner. Essa moça não é uma prostitua, é minha namorada.
- O senhor parece ter muitas, senhor Medina.
- Sou um cara de sorte.
- Estou vendo, senhor Medina. Dá para notar. Mas sem prostitutas aqui.
Medina pega a carteira e retira algum dinheiro. A velha senhora Wagner observa calada, os olhos afiados.
- Pegue. É por concordar que minha namorada durma aqui essa noite.
A velha sorri como uma cobra esperta.
- Gracias, senhor Medina.
- Claro.
Medina volta para a mulher que espera impaciente com outro cigarro entre os dedos. Medina é um colombiano de meia idade, barrigudo, gosta de fumar charutos e beber. Chegou ao motel carregando uma enorme mala. Parece ter muito dinheiro e diz que é um homem de sorte.
sexta-feira, 6 de junho de 2008
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!
Um dia você sente ódio. O corpo queima a garganta estreita e os olhos ardem. Então você grita com seu pai e dispara uma corrida até o quarto permanecendo o resto da noite lá trancado. Chorando.
Você cresce, sente ódio e bate a porta do carro, o telefone, a mão na parede e um vaso que quase acerta a cabeça de alguém. Você chora muito pouco, bebe muito e dorme bastante.
Você trabalha e sente ódio, e manda numa conversa amistosa com ironia nos olhos sua chefe enfiar no cu seu modo caipira de administração. Depois disso, se inscreve em aulas de boxe próximo ao trabalho e todos os socos no saco de areia são dedicados à Gorda-Feia-Mocréia-Caipira que acha que é gente.
Você sente ódio e nunca mais dirige uma palavra ao escroto machista que trabalha com você e acha que é um tipo quando na realidade é um porco ignorante e limitado.
Até que um dia aulas de boxe, remédios, fitas de meditação e paciência de poucos amigos não são mais suficientes.
Você sente ódio. E descobre que odeia porque na realidade gosta de pessoas mortas. Sim, muito mais do que vivas.
Um dia você realmente alivia seu ódio e percebe que nunca mais poderá parar. Não mais. Então vive em muitos lugares, sempre em busca de um modo de parar o que sente dentro. O calor, a febre, a vontade de tirar um elefante da garganta e do peito.
Você acorda então em muitos lugares estranhos. E todos esses lugares são você.
Bianca Rosolem
quarta-feira, 4 de junho de 2008
intempéries
Rodrigo Melo
domingo, 1 de junho de 2008
Claudia Cardinale
sábado, 31 de maio de 2008
Zona Morta
Enquanto ela declamava sobre seu manifesto político-espiritual, uma luz bonita entrava pela janela e descia languidamente até o chão de minha sala. E nestes pedaços visíveis de luminosidade eu observava a suspensão de materiais do ar. Gosto de olhar esta composição e acreditar que tantas coisas existem entre eu, Graça, o sofá, a janela, o chão e o mundo fora do meu apartamento. As coisinhas do ar são muitas e irrequietas.
- Você não concorda?
Ela interrogou-me convicta, esperando que eu fosse melhor e acrescentasse algo. Mas, apenas afirmei com a cabeça e sacudi a mão para dispersar a suspensão: Adeus elementos sem nome do ar. Graça continuou suas palavras e mostrou confiança em seu ideal. Admirei-a por isso. Quase a invejei. Uma raridade, por certo, tal força de caráter em uma empreitada destas.
- Só bananas?
Perguntei para deixá-la mais confortável e assim parecer não tão aborrecida, com aquela touca plástica cafona na cabeça.
- Só.
- Hum. (Isso foi horrível).
Olhei o relógio, estava com fome e não sabia como dizer. Eu não tinha bananas. Abri a geladeira e voltei para a sala com um iogurte nas mãos. A data de validade estava vencida, somente dois dias, mas cheirava bem ainda. Graça, incomodada, se despediu agressiva. Acho que fui insensível. Não respeitei as bananas, a solidão, e todas as coisas do mundo que realmente eu não quero mais saber.
A culpa é das coisas do ar. Eu fico sempre compenetrada nelas. Alguns dizem ser distúrbio de atenção. Outros disseram ser algo do signo solar com o ascendente. Eu não sei de tais coisas, gosto é de ficar perdida por lá. Se o mundo é um grande bocejo de reuniões sem fim, eu olho a luz que escorre pela fresta da veneziana. Ali a imaginação flutua livre e desordenada. Eu suspiro longo e uma ponta de esperança sorrateira cutuca um sorriso no meu rosto quando isso vejo. É quase a possibilidade de voar alto e não cair. Com os elementos suspensos do ar vivo uma promessa além do monótono e crível.
Mas, eu realmente gostaria de, como Graça, me doar a algum propósito. Ou como Eduardo que se virou em (des)propósito com muito whisky e coisas ilegais – não sei de nada disso. Sem atitude de mais ou de menos, eu fico entre as paredes seguras do meu apartamento. A vida vencida cria alguns fungos na geladeira. Lá fora está tudo muito estranho e já não tenho tantos amigos. Alguns estão mortos e estranhamente ainda vivem. Outros comem bananas em cavernas longínquas. Eu tenho certeza de que estou louca, só falta sair por aí xingando todos e carregando uma trouxa de roupas sujas. E dormindo sem teto para constatar que nem no céu existem tantas estrelas. Todas aquelas que alguém que não me lembro prometeu.
Disseram-me que era esse o fim.
Ainda observo o resto da luminosidade da tarde próxima ao lugar recém ocupado por Graça. Fico olhando muito aquilo, todas as coisas flutuam e mexem-se cada vez mais brilhantes. O ar contém tantas pequenas coisas que ainda - quase sem acreditar - não entendi. Espero pegar no sono, muito pesado, sonhar e não lembrar quando acordar.
Bianca Rosolem
quinta-feira, 29 de maio de 2008
Os suaves pés de Carolina chutam cabeças.
quarta-feira, 28 de maio de 2008
vingança
- De hoje em diante, quem quiser roubar, matar, estuprar ou o que for, tem que falar comigo antes. Quem manda nessa porra agora sou eu, estamos entendidos?
Não houve sequer um murmúrio na sala abarrotada. Apenas aqueles olhos arregalados, as cabeças balançando pra cima e pra baixo, os dedos entrelaçados uns nos outros e um suor escorrendo da testa.
- Bom, era só isso.
Então ele desceu do caixote, cruzou a sala, olhando no fundo do olho de cada um, e saiu. Lá fora um carro o esperava com motorista e uma loira no banco de trás. Ela vestia uma dessas roupas de vinil preto. Ele a puxou a seu encontro e beijou-a um beijo cheio de força e desespero. Ela tentou se desvencilhar, mas apenas tentou. Com um homem grande e bruto daqueles, necessário mais que força: vingança, ódio, dor. Lembrava-se dele quando, ainda menina, o viu matar todos na casa, os pais, os avós, os irmãos e os bichos de etimação.
- Qual o seu nome, doçura? – ele perguntou.
- Nádia – ela disse.
- Humm... Então, Nádia, me diga: será que você me agüenta em cima duma cama? – e então sorriu alto, como se ganhasse uma guerra.
Ela também sorriu, e isso até caiu bem, mas enquanto ele pensava em sacanagens e fantasias, ela sorria imaginando os golpes que Ming-ho, o velho chinês, lhe ensinara há alguns anos, quando foi sua discípula no Castelo de Groomannn.
rodrigo melo
terça-feira, 20 de maio de 2008
CONFESSIONÁRIO
Realmente distante, como galáxias e universos. Velocidade da luz mesmo, milhões de anos. Cada um em um canto da existência que não se compreende em ciência alguma.
Sem atrativos físicos, por vezes chato e irritante, ainda assim ele era divertido. Apesar de fingir grande excitação quando não a sentia, eu suspirava e fechava os olhos. Não preciso de muitas preliminares e de foda interminável. Eu sempre preferi a coisa rápida e intensa. O único instante de minha vida no qual nada penso. Não penso. Só depois, com o cigarro aceso, percebo: Algo aconteceu.
Porém, eu acredito que ele gostava de toda uma cena, de horas ali, entra e vai, e eu entediada pensando na próxima posição, aborrecida, cansada de gozar. Rezava para ele logo terminar seu exercício de narcisismo. “Meu falo é tão controlado, tão controlado”... Logo, era um chato.
Terminado, o ar pesado e o corpo amolecido, ele permanecia deitado, descansando comigo, cúmplice, com um abraço cuidadoso. Algum tempo depois se levantava devagar, deslocando-me a um canto da cama. De certo presumia que eu dormia de exaustão da maratona sexual que ele havia me proporcionado. Eu fingia esse mérito também, para então ouvi-lo assobiar tímido no chuveiro.
Ele retornava ainda molhado e me beijava leve para um despertar. Eu nunca dormia ou sonhava, mas fazia um olhar sonolento. Eu acendia um cigarro e, com a cabeça apoiada em suas coxas, olhando para seu rosto, pedia: Faça-me nova em outra história.
E ele então poderia ficar por horas dizendo tantas coisas sobre alguém que ele nem tão bem conhecia ou deveria. E esse alguém tinha o meu jeito de despentear os cabelos e também passava batom sem mirar-se no espelho. A minha heroína que ele sonhava era feliz, corajosa, honesta e conquistadora. Ela não tinha tantas dívidas na gaveta, ou remédios no armário do banheiro. Nem bebia tanto Martini barato. Era champanhe em linda taça, que refletia todo seu brilho em meus olhos, e então eu ficava tão bonita que ele dizia que me amava. Fogos de artifício e música se ouviam, e o mundo girava lentamente ao nosso redor.
E ele muito contava de todas essas vidas que éramos nós em lugares que nem sequer no mapa eu conhecia, e emoções que eu já ressentia eram vivas e também esperanças e pôr-do-sol e sorrisos.
Eu cansava, acredito que era culpa da realidade barulhenta que subia até nossa janela nas madrugadas. Sirenes, cusparadas e discussões baratas. Ainda assim, permanecia admirando-o e cantava alguma música triste em minha cabeça observando o movimento de seus lábios sonhadores.
Eu já não mais poderia ouvir.
Só deixava meu corpo sentir a vibração de sua voz.
Um dia eu voaria.
Bianca Rosolem
Sueli
sábado, 17 de maio de 2008
“NÃO QUERO NADA NÃO”
É só vontade mesmo de sentar em algum lugar e deixar o tempo passar passando, e tudo é passeio. Conversa de menos, a cabeça pensa demais, e racional ando em excesso, e falta tragédia picada crua nas minhas palavras.
Se critico, sou uma chata, pedante, arrogante – alguém pode elogiar mais, por favor? Se poetizo, morro no inferno doce das utopias. E, quando reclamo em primeira pessoa, me coloco na frente da roda da vida, expondo meu umbigo da bunda para qualquer pontapé errado. E, quem pensa que saio ganindo - ledo engano! - sou cadela safada, que volta e pede mais. Aprendi “de pequena” que tapa – só de amor, hein! – educa e faz crescer.
Eu lá fiquei com as baixinhas e se algo cresceu, foi essa rudeza com o mundo e uma perversão masoquista DO eu PARA o eu. Psicanálise eu faço baratinho, senta aqui do meu lado que eu não fujo, pode chorar sim, eu até gosto, deixa só um “bocadinho” para que eu também possa desfiar os retalhos dos meus fundilhos.
Veja lá, estou quase reclamando...Entenda, estou quase agüentando... Eu sinto é saudades de algo que eu nunca vivi. É esse cheiro estranho desses dias de muito se gostar só. Passa alguém e sinto esse perfume de quem não lembro. Estou intrigada pelo conhecimento do dono cheiroso dessas memórias perdidas. E, sabe, vou confessar que isso ainda me deixa um pouco feliz, quase esperança. E também, conseguir no outro dia acordar e fazer tudo igual sendo que dentro está tão diferente parece uma força. Eu acho que tenho mais fé que pensava.
E parece uma coisa redonda que vai, vai, vai, e caí ali, exatamente no tropeço inicial. O mistério é o suspense de viver. Mas o segredo é besta, como o mordomo ou o Coronel Mostarda, na cozinha, com o candelabro.Esse é tabuleiro e as cartas são marcadas, “vai se acreditando esperta, menina”. Mas eu realmente não estou pensando nada não, são as palavras fugindo e a cerveja esquentando.
Bianca Rosolem
sexta-feira, 16 de maio de 2008
anos 70 na casa da minha avó
Das lembranças muito nítidas, um tapa por quebrar um jarro, a gaveta do guarda-roupa com os sacos de balas Soft e de chocolate, a cozinha sempre cheia e lá fora o quintal, grande, com rex amarrado num canto e os pés de acerola, carambola e biri-birí. Havia também a mesa farta, de gente e de comida, e a troca de pratos e conversa que não acabava mais. Dias bons, anos bons, o mundo possivelmente tinha mais serenidade e inocência.
Meu avô por essa época andava nas roças, cuidando dos negócios da família e de outros também. Nas horas vagas, aparecia. A velha, que tinha o coração mole e grande, aceitava-o com o melhor sorriso. E então nesse dia fazia sol, e de uma hora para outra as balas Soft surgiam como num passe de mágica, e havia sempre futebol na tv, pudim de leite com calda de ameixa sobre a mesa, acerolas no quintal, Rex fugindo para a rua e a impressão de que essa vida corrida, ingrata e por vezes louca estaria sempre aqui, na palma da minha mão.
Rodrigo Melo
sexta-feira, 9 de maio de 2008
,,
- faltou brita...
Participara de um show na noite anterior, também parou na frente do computador e pôs-se a treinar Excel, ligou para a mãe, fez uma lista de compras – farinha de trigo, queijo, uma janela de vidro para a construção. Por vezes o dia amanhecia meio nublado e ele se escondia, por vezes fazia sol e vinham as iluminações e ele se descobria único: poderia estar em outro corpo, ter outros pés, outras mãos, outra mente, mas veio e nasceu um pouco assim e se transformou no que era agora – e se nascesse libriano, chinês, gabiru? E em outro país? E as tais reencarnações, hein? Tanta coisa pra pensar se existe ou não, afora a realidade das matemáticas das lojas de materiais, do falso bom humor dos vizinhos, do calor do sol, do estoque na despensa ou a ressaca da noite anterior. Preguiça pra ser tantos. Preguiça e medo. Enquanto não se decide, espera os dias passarem, torcendo para que Deus lhe dê sorte e uma filha cheia de compreensões.
- faltou areia e cimento também.
E a vida seguindo a correnteza do mar, lá embaixo um arco-íris dizendo que não vai mais chover.
terça-feira, 6 de maio de 2008
Motel - Chegada
Apartamento número dois, disse a mulher sorrindo e dando-lhe a chave depois de pegar algumas informações de costume.
- Apartamento número dois - repetiu Carlos. Obrigado.
Carlos subiu as escadas e sumiu no corredor.
QUANDO VOCÊ NÃO DISSE MAIS "EU TE AMO"
A aranha fazia sua teia, paciente, ela traçava destinos e fins. Alí algo iria morrer. E sempre morria dentro de mim, também, e eu sentia uma tristeza que me fazia ficar embaixo do chuveiro quente. Eu chorava ali, encolhida, sentindo a água, e você nem percebia enquanto fazia a barba.
Eu chorei algumas outras vezes também. Poderia estar chorando agora, vislumbrando suas costas frias e distantes como as paredes. Mas acho que algo perdeu-se naquelas teias antigas do telhado e da vida.
Descansei a cabeça no travesseiro, esperando por algo maior. Exstia uma vida insatisfeita e faminta, algo ainda incompreensível que me fazia querer correr.
E quanto mais de fome eu doía, e quanto menos eu respirava, eu procurava o calor de seu corpo estendido e inerte. E depois do conforto instantâneo, ficava perdida novamente. Era uma falta sem saber.
Fiquei ainda procurando por algo sobre nossas cabeças, alguma resposta, algum alívio, algum fim sem sentido. Sem sentir. Sem viver aqui esperando o retorno das suas costas. A aranha está ali, nos olhando, tecendo, cuidadosa. As suas costas e as paredes. Sozinha.
