segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Saudade

Eu deixo a porta da cozinha aberta. É pra você entrar. Puxo a cadeira e sei que você também perdeu. A cozinha tem essa luz embaciada e algumas sombras engraçadas. Ouço o som da luz fluorescente, do motor da geladeira e alguém cantarolando no apartamento ao lado. O cigarro queima e todo o apartamento parece me expulsar para antes de tudo. Eu fico acuada enquanto te aguardo. A porta semi-aberta. Outro cigarro e nem gosto tanto de fumar. Talvez eu coloque água no fogo e te sirva um café. Posso deixar uma música tocando na sala. Alguma coisa que nos traga de volta. Eu ainda não entendo que há outra vida além daquela. Não fui à manicure e me arrependo. Gosto quando é vermelho. Veja bem, queria ter essa conversa melhor. Mas tenho de ser honesta: Não consigo. Apenas os signos e as palavaras mais que dispersas: Assim como o vento, o afogado, o perdido, o sentenciado.

então eu digo sobre o buraco,
sobre pessoas estranhas que não entendem
juventude equivocada
pouco tempo para apenas um
tanta história e um só momento

e eu ainda sinto a sua falta

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

ESTANQUE

Veja bem, eu quero culpar o mundo por essa dor, que nem 400 mgs de carbamazepina conseguem contornar. Eu quero dizer que é esse tempo estranho, sem sol e sem ar, que gela meus ossos, apesar do casaco quente, bonito e caro que uso. Sim, eu quero te arrastar junto para o meu buraco, só porque você meu ouve tão compenetrado nessas horas. Então eu disse "mamãe, somente essa vez, me ame!". Ela virou as costas e atendeu o telefone, e eu enfiei um garfo na perna e só consegui dormir quando o sangue estancou. "Você me acha louca?" Nunca ousei perguntar, eu fico com isso entalado na garganta, e grito baixo, xingo alto, ando rápido, tomo café e sorrio de uma forma debochada para as pessoas na rua.

Essas novidades tão modernas só me fazem descrer ainda mais na raça humana e na sua salvação, daí eu entro na igreja bonita da praça da Liberdade - parece uma gruta perdida - e lá olho aquele Cristo sofrendo e só posso dizer "Hey cara, isso vale tanto a pena assim?" E, claro, ele não responde, nem responderá, apenas sangra. Eu fico com raiva e coloco o ipod no talo, até não ouvir sequer mais um som do mundo, e fico imersa naquela dor que é revolta, medo, indignação e, sobretudo, um amor tão grande que não tem colo para chorar e se aninhar.

Daí eu, sei lá, nem sei como escrever essas coisas que somente a alma vive. Eu sei que sinto saudades de algumas pessoas, mas elas já morreram. Fazem parte das cinzas que depositei no mausoléu das lembranças desnecessárias. E eu até gosto disso. Estou livre demais. Só espero saber o quê fazer dela agora.

Alguma sabedoria devo ter adquirido na caminhada até aqui.

Olho ao meu redor, praça da Sé, 18:30. Os sinos tocaram e um dia já é findo. Eu quero sentar nessa escada e perguntar para o cego pinguço se tudo ficará bem.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

CASA NO CAMPO


Babilônia
big city
é esse agito
contínuo, novidade
i like it
but



às vezes eu ainda sonho com a casa no campo
rock´n roll nas montanhas
relógio lento na sala
enquanto o sol caminha e deixa a vida
com sabor de mel, café torrado e bolo recém-assado


eu sou de sampa
e ainda troco essa roupa
dura e cinza
por algo bem leve
que balance com o vento
e tenha cheiro de mato molhado
e amor de se levar até as últimas rugas
and "what wonderful world"
the end

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

DEVANEIOS PARA UM FERIADO

Eu só decidi manter um grande segredo. Então eu acordava de madrugada como se fosse dia claro, saía e respirava o ar que descia gelado e novo das montanhas. Acompanhava o sol e de certa forma participava da criação do mundo. Era o que então eu pensava, sorrindo discretamente, enquanto olhava o verde, o azul, e uma penumbra dourada que transbordava pela janela da cozinha e fazia o bolo de mandioca ficar bronzeado.

O cheiro do café tomava a manhã e desaparecia lentamente. As abelhas, as flores, tudo pareceria só meu, criado por mim e por alguma outra coisa também mágica do universo. Caso eu ainda estivesse sonhando, parecia muito real. E quem poderia me dizer o contrário, se eu estava sentindo e vendo toda aquela vida muito honesta e calma por todos os meus poros e vivia a paz?

E ouvia alguns bichos que pareciam ensaiados, mas também tinha algo de improvisação, quando o besouro pousou no livro, e me assustei, e todos riram. Eu também.

Era alegre, morno, com cheiro de mel e café, cerveja gelada, um pulo na piscina, leve arrepio, cheiro de grama cortada, sorrisos de interior, música e nostalgia, talvez alguma confissão sobre o invisível.

Daí eu sei que gosto de ficar só e quando perto dos amigos mais queridos percebo algum privilégio em manter-me fiel à verdade da vida, que mesmo dura, nos brinda com momentos tão completos que vale então tudo.

O resto é só a vida mesmo, vai compreender... .

domingo, 16 de agosto de 2009

Looser

Eu perdi o prumo
a linha
o dom com as palavras
mais bonitas
as deixei nas sarjetas
outra vez,
toda a esperança sorrateira
os sonhos inebriantes
decaíram como heróis que nunca existiram
e a lucidez catastrófica
reapareceu
por detrás desse verniz falso
“o teu nome é caretice”
e às vezes é fluoxetina
e tantas outras drogas
pra gente morrer e continuar vivendo
e agora que eu morri, desejo viver
e morrer, morrendo
i´m so confused, baby
whispering
take care...
please
é o preço da escolha

terça-feira, 4 de agosto de 2009


O meio-médio ligeiro desce do ringue apoiando-se nos ombros do seu treinador. No alto e ao redor, centenas de pessoas balançam os braços, gritando, batendo palmas e sorrindo: um turbilhão de vozes que ecoa e que se expande até as ruas próximas ao ginásio. Embora cansado, seus passos são firmes, seus olhos brilham. Seus cabelos, grandes e crespos, têm um formato engraçado, herança do protetor que acabara de usar.

- Viu como a esquerda entrou? – diz-lhe o treinador, um negro de bigodes, logo que chegam ao vestiário.

O meio-médio ligeiro balança a cabeça, confirmando, no entanto sem compreender as palavras que lhe foram ditas. Tira as ataduras das mãos com a tesoura, em seguida livra-se das roupas e das botas e entra no chuveiro. O relógio dependurado na parede marca quatro e dezesseis da tarde. O sol entra por uma fresta no basculante. A água fria, em contato com a sua pele, dá-lhe uma sensação agradável, renovadora. Fecha os olhos enquanto a água cai, cruza os braços por sobre o peito e respira forte. Mesmo dali, ainda consegue escutar as vozes no ginásio, agora gritando para uma outra luta – eles precisam de alguém. Relembra alguns momentos do seu combate, um golpe que entrou, outro que passou perto, um que levou. Às vezes, quando uma luta acabava, tinha a impressão de que fora favorecido pela sorte, que algo de extraordinário, talvez espiritual, acontecera e ele então saíra-se vitorioso. Em outras vezes, tudo dera errado apenas por conta do azar; nunca, em nenhuma situação, a sua competência entrara em jogo, e sim algo maior. Eram pensamentos estranhos, mas ele acostumara-se a tê-los e ficava mais fácil assim.

Desliga o chuveiro e senta-se num banco, a toalha enrolada na cintura, a pensar.

- Te disse que ele não tinha pegada, ia cansar – fala o treinador -, se me escutasse antes, a diferença seria bem maior. Moleza.

Os braços continuam inchados. O cansaço diminuiu, mas sabe que precisará de forças. Os cubanos são duros, ouviu falar.

Estira as pernas e deita-se sobre o banco.

Imaginara dezenas de vezes aquela luta, mas, de alguma forma, algo estava diferente. Está estranhamente tranqüilo. Sente a importância do momento, mas sente-a nos outros – na cara nervosa do treinador, no sorriso de um dirigente que lhe procura, no semblante de um outro lutador. Por sua cabeça, entretanto, pensamentos distantes: lembra da voz rouca de uma atriz, duma vez em que fumou maconha atrás de um colégio com dois amigos, da cor que o piso do ringue tem. Sua mãe certamente está em casa, com o terço nas mãos, de frente para a tv. Talvez seja de bom agouro ligar para ela, escutar o que tem a dizer. Faz o movimento para levantar-se, mas alguém então entra no vestiário: tem pressa, necessita urgentemente de um protetor. Outras pessoas aparecem, mais uma luta chegou ao fim. Ele fecha os olhos e esquece o que acabara de pensar.

- Acorda, rapaz.

Meia hora depois e o treinador está de pé, ao seu lado, balançando-lhe.

- Tá na hora...

Por cima de uma mesa, o conjunto limpo de short e camiseta, ambos vermelhos e com listras brancas. Lava o rosto. Olha-se no espelho. Por um momento, gostaria de saber se o seu rosto é o rosto de um vencedor. Talvez seja. Talvez esteja apenas um pouco velho para a idade que tem.

- Vamo, porra! – diz o negro de bigodes, dando-lhe tapas nos braços e nos ombros – essa é sua, caralho!

Após alguns exercícios, o meio-médio ligeiro está pronto para lutar outra vez. São cinco e vinte e sete de uma tarde quente de domingo. No ginásio, o público espera, ansioso.“Deus, me ajude!” Seus olhos brilham. O barulho é imenso. Saltitando de um lado para outro, ele ganha o corredor, na dúvida entre tentar cantar ou não o hino nacional.


R.M.

NO ME GUSTO MAINSTREAM

Eu te quero todo
lado B
Não gosto daqueles, tipo
top 10
mais vendidos
prediletos
essenciais

Eu te quero todo
Do jeito que ninguém
viu ou ouviu
novo e secreto
que devo descobrir
deliberadamente

FUCK OFF!

O meu corpo é humano
de tecido vivo, vasos,
sangue muito vermelho
pulsante
dança o pensamento
sem nunca desejar ser único e parar
e também tenho cabelo nas ventas
minhocas que tartamudeiam minha cabeça
e daí eu fico toda gente demais
e sinto extremos ao longo do dia
e me recuso a viver como lagartixa
na frente ociosa da tv noturna
depois de trabalhar de forma enfadonha
e dormir ao lado de um corpo
tão morto
todas as noites
as ventas queimam minhas idéias
que pulsam meu sangue
e derramo lágrimas carmim
sejam elas de alegria ou dor
como um gozo dissolvido
em suspiros em seus ouvidos
sinto tudo de uma vez, só

E o resumo da ópera da minha vida
é que eu nasci pra viver
e vivo pra morrer
todos os segundos do dia
So, fuck off!

sexta-feira, 31 de julho de 2009

OLHOS ESFUMAÇADOS DE NEGRO

Ainda não é tarde
e já poderia reconhecer
nas sombras
os rostos que eu deveria lembrar
e estranhamente não os recordo
pois não posso dizer
por onde andei
Maybe

I have a secret

quarta-feira, 29 de julho de 2009

QUANDO NÃO PAROU MAIS DE CHOVER

Chove pedra
O céu deseja a morte
em trovoadas extensas
clarões que apenas fazem
a noite mais negra
e meu pesadelo
é você que me persegue
só, me resta a aflição
enquanto fico trancada
na pequena sala
grilhões pesados na imensa porta
eu me escondo de você
claustrofóbica
e a solidão entope minha boca
de um bolo azedo
you´re so sour, baby

Mas eu acredito estar salva

domingo, 12 de julho de 2009

OUTRA PRA VOCÊ (Ou só porque eu não te conheço)

Todos os comuns
They do
Juntos
Festas
Supermercados
Sorvetes no quiosque do shopping
Filhos mal educados
Vícios insuficientes
Cafeína, cocaína, codeína
Não exatamente nessa ordem
Existe a sua falta
A ausência
A solidão por entre a gente
Do poeta de muito tempo atrás
Eu me acho tão diferente
But I do too
Versos de rimas primárias
Precárias
Tão comum
Mente

quarta-feira, 8 de julho de 2009

RASO OU PROFUNDO DEMAIS



Tinha um pessoal cheirando pó dentro de um carro na frente do bar. Creio que dois caras e uma mulher. Debrucei o meu tronco no muro da varanda, ficando praticamente dependurado, e falei pra eles:
- Ei, turma, aí não!
- O quê?! – um dos caras gritou, o que estava do lado do carona.
- Vocês não podem fazer isso aí, não! – respondi.
- Ah, porra, aqui é uma rua, um lugar público!
- Público, o cacete! Vocês estão no passeio do meu bar, seus filhos da puta! – disse, já imaginando a merda que estava por vir.
Então eles conversaram um pouco, depois ligaram o carro e foram embora. Um pouco de bom senso, pelo menos. Voltei para o balcão e preparei um conhaque com gelo e refrigerante para Adib. Adib também fazia das suas, mas usava o banheiro e não deixava pistas por lá – o tipo do freqüentador que se preocupa com as regras do lugar. Isso conta bastante. Ele pegou o copo de conhaque com refrigerante e deu dois bons goles. Em seguida acendeu um Hollywood e ficou olhando pra mim.
- Você ta preocupado com alguma coisa.
- Eu?
- É. Ta com uma cara diferente. Se for o meu débito, terça sai um dinheiro.
- Não é nada disso.
- É o meu entra e sai do banheiro?
- Não.
- Hum.
Tirei as cervejas que estavam na parte de cima do freezer e passei para a geladeira. Quatro ou cinco haviam empedrado. O movimento estava fraco. De qualquer maneira, coloquei quatro quiches para assar. Adib falava sobre alguém que aprontara com ele no bar do italiano na noite passada. Ou talvez na noite retrasada. Ele falava daquele jeito enrolado dele, quando Deise apareceu. Vinha de um show de pagode. O show tinha sido uma porcaria, choveu e tudo, mas ela ainda sorria sem parar. Em determinado momento, os dois foram para a varanda, fumaram um cigarro e então Deise passou para o banheiro. Dois minutos depois, saiu com aquela cara de quem acabou de ser pega roubando. Engraçado, mas ao mesmo tempo triste.
- Me dá uma tequila.
Coloquei a tequila e ela virou de uma vez.
- Agora, uma cerveja.
Sentaram-se do outro lado do balcão e Adib voltou a falar sobre o cara que aprontara com ele. Uma estória confusa, parece que o cara roubou Adib de alguma forma e depois fingiu que nada tinha acontecido. Eu não consegui acompanhar. Há uns dois ou três dias me sentia um tanto distanciado de tudo e, ao mesmo tempo, incomodado, sem no entanto entender o porquê daquilo. Deixei os dois no balcão e fui até a varanda fumar um cigarro. O carro com os dois sujeitos e a mulher voltara e estava estacionado no mesmo lugar de antes. Eu via através da sombra o movimento que faziam. Por mais que a rua estivesse sem fluxo, a qualquer instante poderia aparecer alguém.
- Ei, caras! Ei!!!!
- Ah, porra, vai tomar conta da sua vida! – gritou um deles.
No mesmo instante desci, peguei a pedra que escorava a porta e fui em direção ao carro. Estava enfurecido – muito pela prepotência do mundo, outro tanto por aquele mal estar que eu vinha sentindo. Enquanto caminhava, ouvi alguém gritar “Puta merda, aquele maluco ta vindo com uma pedra pra cá!”, então os faróis se acenderam e o carro de repente saiu cantando pneus.
Então eu estava do outro lado da rua, encostado à mureta. As luzes dos barcos deslizavam lá embaixo, no mar, e a luz do farol às vezes iluminava o seu caminho. Cada coisa que a gente tem que passar, eu pensei. E a depender do dia, parece que tudo ganha proporções diferentes, tudo torna-se raso ou profundo demais. Que invenção essa, o homem. O homem e o mundo que ele inventou.
Quando voltei, não encontrei Adib nem Deise. Imaginei que estivessem lá em cima e não gostei da idéia: o lugar de fazer certas coisas era o banheiro, era lá que se dava descarga, que se lavava as mãos, que se evitava os flagras. Fui, me esforçando para não fazer barulho, ver o que eles faziam. Olhei para o palco e nenhum sinal. Quando me virei para o outro lado, vi Deise debruçada na janela e Adib pegando-a por trás, pela cintura, e fazendo aquele movimento de ir e vir. Os dois embalados pelas cafungadas, pelo álcool e pela necessidade de sentir, a luz do poste em frente batendo nos dois e criando reflexos bonitos, imagens cheias de vida e de cor. Às vezes ele aumentava o ritmo e ela gemia baixinho, jogando a cabeça para trás.
Voltei para o balcão, coloquei um disco pra tocar e tirei as quiches do forno. Eram 12:47 de uma noite fria e sem futuro algum. Talvez eu devesse contratar alguém, pensei. Ou viajar. Peguei o copo de conhaque com refrigerante de Adib e virei.


Rodrigo Melo

quinta-feira, 2 de julho de 2009

LA REVANCHA DEL TANGO







"Primeiro dia. Sem música, apenas um quase silêncio. Melancolia. A Cidade Fantasma é uma merda. Assim continuará. O maior símbolo da Cidade Fantasma é um avião numa praça morta.O apartamento é minúsculo e sobre o sofá está um maço de cigarros e o livro Crazy cook, de Henry Miller. O galo louco, o pau louco, o cacete louco de Miller. Um tempestuoso triângulo amoroso que leva o escritor ao desespero.Concluí que não gostaria de estar na pele de Henry Miller. Passo a vida evitando mulheres loucas, mas nem sempre consigo.Lembro de um tango de Astor Piazzolla, de mulheres usando leves vestidos que deixam escapar longas e lindas pernas quando dançam. Lembro das mulheres que não conheci. Abro a geladeira para pegar uma bebida. Encontro apenas uma garrafa de Coca Light. Como Juliana consegue beber isto? Tento beber um gole, desisto, pego o maço de cigarro sobre o sofá e espio a cidade lá fora enquanto a suave brisa da noite lambe meu rosto. Fumo um cigarro enquanto penso nas coisas e tenho vontade de usar um chapéu panamá".

quarta-feira, 1 de julho de 2009

CAFEINA + COMPRIMIDOS

para quem não deseja
dormir
sonho acordada
novamente
pela 1ª vez

é quando vejo
do alto do viaduto
os carros passarem
e acredito poder-voar

é uma esperança bem assim
que carrego no peito
do beija-flor
asmático

quarta-feira, 24 de junho de 2009

14:hs | Tarde

Algumas folhas de jornal grudaram-se umas nas outras como asas de borboletas encharcadas. Borboletas bêbadas que tentavam voar e zanzavam trôpegas até encontrarem um poste, e ali ficarem grudadas. Eu observava a cena através da janela de um pequeno apartamento que eu alugava num velho prédio no centro de Porto Alegre. Lá fora despencava uma tormenta infernal. O céu desabava, a água da chuva inundava a cidade formando corredeiras junto às calçadas. As folhas de jornal escaparam das mãos de uma mulher gorda que se movia com a dificuldade de um elefante lodoso. Ela ensaiou uma corrida desengonçada, cuidando para não esborrachar-se no chão. Escorregou um pé, a perna direita, curta e grossa abriu-se como um raio. Os braços moveram-se rapidamente lembrando os de uma marionete, com a ajuda deles a mulher gorda recuperou o equilíbrio e então parou sob a chuva tentando refazer-se do susto enquanto o jornal se desmanchava. O guarda-chuva transparente mal protegia o corpo imenso da mulher.

terça-feira, 9 de junho de 2009

ARTISTA

Caco, o homem-arte, apareceu para almoçar e acabou ficando pra janta. Passou a tarde inteira no sofá, reclamando das dificuldades de ser um artista e soltando vez por outra uma bufa daquelas de azedar. Um comportamento meio batido, mas que ele insiste em manter.
- ninguém sabe o que já sofri.
- Isso é uma música? – perguntei.
- na minha concepção, tudo pode ser música, tudo pode ser arte, tudo pode ser vida...
Ele se diz pintor, músico, ator e escritor, além de produtor freelancer. Pelo que sei, faz tempo que não cria nada, mas parece que andar entre artistas, de alguma forma, o conserva ou o faz artista também: volta e meia organiza festinhas com a nata da intelectualidade numa das casas que herdou da família. Quando fica cheio do goró, faz discursos, quase palestras, no fundo um blablablá interminável sobre a verdadeira essência da vida ou sobre a necessidade de ser e de se sentir livre ou sobre como as almas evoluídas sofrem nas mãos do mundo insensível, injusto e burguês. Um clichezão daqueles, sobretudo quando se leva em conta que caco não é nada daquilo que apregoa. O pior é saber que sempre tem um ou outro caindo na sua conversa de injustiçado: de uma maneira um tanto quanto inexplicável, ele consegue criar toda uma espécie de aura ao redor de si mesmo e convence meio mundo de gente de que de fato é um batalhador e que manda muito bem. E assim vai levando, empinando a bunda no meu sofá, fazendo dramas, soltando umas bufas e se sentindo “iluminado”.
- caco, e aquele projeto do jornal?
- desisti; sobrava todo o trabalho pra mim.neguinho tá pensando o quê? Sou artista, porra, não tenho que ralar, não!
- mas a turma todo não era de artistas também?
- nada. Tudo burguês, gente que recebe subsídio de parente.
- e você não?
- que conversa é essa, rapaz? Ih...
Ficou me olhando de lado e então levantou um pouco o quadril, provavelmente soltando outra bufa. Orgulhoso que só. Depois começou a falar sobre um projeto em andamento, um dos bons desta vez. Parecia bem confiante. Eu sabia, no entanto, que esta confiança, com o passar dos dias, diminuiria, e que tanto este como qualquer outro projeto, se dependessem unicamente do esforço e da capacidade dele, nunca dariam em nada( caco precisa apenas do sol das praias, da ebriedade das noites, da leveza que somente o descomprometimento pode trazer), assim como também sabia que logo após a janta, antes de lavar os pratos, ele viria com uma meia desculpa qualquer, talvez um encontro com algum ator, diretor ou um novo talento musical, talvez uma dor de cabeça ou esporão ou mesmo um desses afazeres fictícios que de tanto repetir acabam virando realidade, e sairia apressado como alguém que está prestes a pegar um trem, salvar o mundo ou qualquer coisa assim. E foi justamente o que vi: ele descendo de dois em dois os degraus da escada, os cabelos, bem tratados, balançando no ar, a pele morena queimada de sol e uma mancha marrom, quase imperceptível, nos fundilhos da calça que alguém, o ano passado, trouxe especialmente pra ele do Perú.

r.m.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Quando as coisas simplesmente não têm explicação

Eu ando bem feliz, e eu acho que o nome disso é alegria porque tem uma constância na coisa. Explicando: Meus dias estão lineares, sem descidas automáticas até o inferno. Talvez, eu tenha perdido noção do caminho até lá. Vejamos na contagem do tempo passar.
Tenho me perdido em pensamentos do micro para o macro, como, por exemplo, o jeito único que observo a luminosidade dessa tarde gelada e como essa beleza apenas é um composto químico e físico que formam tanto a matéria do céu quanto a que pertence ao meu corpo.
Tenho uma experiência espiritual-racional e tudo fica tão grandemente simples, que os meus problemas cotidianos e humanos mal cabem na sessão de terapia. Aliás, a última sessão foi uma grande conversa sobre o absurdo de se compreender o mesmo objeto analisado sob diferentes perspectivas. Daí que eu penso que o "serumanu" se perdeu mesmo. Afinal, ele valora mais o seu do que o outro, mesmo quando o foco é o outro.
E daí,claro, conversando com minha mãe identifico que a filosofia é uma ciência do pensamento, of course, e por isso mesmo absolutamente distante da praxis. Certo é que alguns filósofos foram seus pensamentos - e vice-versa, porém, acreditar na filosofia como uma realidade é uma bobagem utópica cheia de ingenuidade e paixão.
A filosofia é bem um instrumento, o meio para um fim individual, não o fim em si mesma.
Tá aí a grande arte da parada. É essa transmutação do macro para o micro, do conhecimento para a experiência, e assim vai... .

sábado, 9 de maio de 2009

DO FIM

Porque você não vai
De uma vez, SAI!
Sim, e bata a porta
Da rua encha a boca
E grite: Puta!
Todos já ouviram menos
Do mundo
E mais do desespero
Mas, vá e não volte
Que seus passos sejam ecos
Do amor, sussurros dos lençóis
Que o quente de seus beijos
Apenas uma lembrança antiga
Como o alento de seu sorriso
Apenas um esboço no tempo perdido
E na morte das tardes
As mãos se buscavam cegas
Para entender que de dois se era um
Mas agora que tudo é partido,
Quando nos partimos,
Você está partindo
Os pratos foram na parede partidos
Eu fiquei aqui parte-ida


Porque você não vai
De uma vez, SAI!
Sim, e bata a porta
Não volte
Nunca mais me toque
Fique longe
Do corpo e da mente
Nunca existiu "a gente"
Ah! Me deixe vazia
Sem lembranças
Sem despedidas
Idas
Parte
Nossas
Vidas
Vai!

quinta-feira, 30 de abril de 2009

ELEGIA A SOLIDÃO MODERNA

E eu aqui pensando, não gosto mesmo de coisa muito pessoal. Em primeira pessoa só falo de outros, mesmo que eus, ainda assim não é aquele de hoje.

Agora se isso faço – veja o primeiro tempo verbal conjugado - porque quero é meter meu bedelho nesse mundo estranho. Eu vou até sentir falta do sertanejo brega que canta a saudade “do seu amor quentinho”, ou aquele papo-cabeça canção de quem se sente sozinho.

Tudo pra dizer que eu quero mesmo é cada vez mais enlouquecer e me enfiar numa caverna com poucas coisas e jogar minha própria merda no chato que ousar passar por lá com toda essa parafernália moderna.

É Orkut, Twitter, celular-computador, computador-casa, casa-orkut, fotolog-amigos, eu já não entendo mais nada, essa coisa dessa gente falar tanto sobre coisa alguma. E toda essa especulação sobre a vida alheia só poderia tapar dentro de cada um, sei lá, quem sabe, algo do tamanho de um buraco negro existencial.

E a cada século o ser humano dá mais um grande passo na sua eterna cagada de não se conformar com sua própria insignificância perante o Universo e a magnitude da Vida, e decide criar alguma brincadeira infantil e coletiva para distrair-se da consciência individual e cruel.

Eu, como sempre digo, – e nem eu sei quem é essa aí que Vos fala – prefiro é ficar mesmo na minha vidinha besta pra caraleo, sem muitas coisas legais pra contar, sem muito me enfeitar e sem aprender a fazer bico.

E também, sem ser uma pra contar.

domingo, 19 de abril de 2009

APATIA A CABO

Pelo telejornal
do canal pago
Assisto o mundo
Aperto a função mudo
e tudo permanece ruindo
em estrondoso
SILÊNCIO!

sábado, 11 de abril de 2009

TEMPOS MUITO DEMAIS MODERNOS

Ele chegou e enfim consegui respirar novamente. O dia todo fiquei com medo. Permaneci escondida na sombra que os objetos faziam pela casa, conforme o sol cumpria sua rota astronômica. Chorei quando ouvi ruídos próximos da porta e pensei que talvez eles estivessem aqui para me levarem embora. Uma mosca estranha também tentou pousar muitas vezes em meu cabelo e fui tomada por um infinito terror. Por isso, quando ele entrou em casa eu respirei e sabia que não estava mais só e podia ser corajosa e ir até a cozinha tomar um copo de água. Ele parecia muito cansado e cumpriu com seus movimentos ordinários. Deixou a pasta sobre a mesinha próxima da porta. Tirou os sapatos e os colocou embaixo da cama. Tirou a roupa, e deixou-a sobre a cadeira. Depois tirou a minha. Alguns minutos depois levantou e foi ao banheiro. Eu fiquei olhando-o fazer xixi ainda deitada na cama. Senti ainda algum receio da vida estranha que estava vivendo sob a minha janela e pensei que talvez aquele ar de outras pessoas pudesse me fazer algum mal. Soltei um gritinho abafado e enfiei a cabeça embaixo do travesseiro. Ele voltou, abriu o zíper que descia desde o osso esterno até o umbigo, e retirou de lá os órgãos que ainda lhe restavam: o estômago, fígado e intestinos. Deixou-os dentro do jarro ao lado da cama e ficou ao meu lado dormindo com os olhos abertos. Eu enfiei a mão no buraco do meu peito, agora eu podia, com ele velando o meu sono, sim, eu conseguiria, e senti o passarinho que vivia entre os meus pulmões. Era um pequeno beija-flor asmático que, quanto mais as asas batia, mais perto da morte se aproximava.

segunda-feira, 23 de março de 2009

... O retorno do sentir

E a distância da sua existência me ensinou a solidão maior. Por entre todas as pessoas e lugares, estou encarcerada pelas lembranças do que acredito que foi bom. Eu nem bem sei se é real toda essa falta de você. Eu só sinto essa enorme muralha que emerge do chão e cresce sobre o mundo e não sou capaz de sorrir de dentro. Eu poderia te carregar para algum lugar melhor longe dessa gente feia e sem graça. Eu gostaria de nos proteger desse final de tudo lento e decadente dessa cidade. Eu não compreendo muitas coisas, e cada vez mais a sabedoria não me pertence. E tudo é esse sentimento estranho, como se eu fosse capaz de voar, mas meus pés estivessem atados ao chão.

E só me resta então a angústia e esse destino cego, essa vida sem saber, aguardar o acontecimento maior, o evento predestinado, como um novo nascimento em um corpo já muito antigo. Com grandes asas leves alçar vôo, sentir a poeira do chão subir, e buscar você lá de cima. E fugir para alguma terra alta, distante disso tudo, com o horizonte dolorido e livre, sentiremos o aperto no peito que só a felicidade transbordante da esperança real é capaz de proporcionar.

E eu só peço, veja bem, é tão pouco, meu Deus, é quase nada, que você me conforte e em silêncio compreenda o incompreensível junto de mim com todas as palavras que só o silêncio maior produz.

“Veja só - suspira uma brisa que leva levemente os cabelos e arrepia calmamente na alma – estamos no coração da vida, soerguidos pelo mistério, nada aguardamos, além dessa sensação de algo que está realmente em seu lugar. ”

Agora estou de volta com minha caixa de bagunças demasiadas humanas: www.caixaderascunho.blogspot.com

terça-feira, 3 de março de 2009

Big Mess

Eu só queria te dizer
Eu nem sei bem como
Tudo se perdeu
E gostaria que alguém explicasse
Uma formula secreta
Que resgatasse
Os momentos mágicos
Algo de bom
Entre nós
E agora distantes
Talvez eu acredite
Que os detalhes
Não fossem importantes
E só restasse
Os finais de tarde
As alegrias
Esperanças
De uma vida mais
Completa
Que não soubemos
Levar adiante
Será que há
Sabedoria no mundo
Para dizer
Eu e você
O quê deveria ser
Melhor?

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Todo mundo fica triste quando chove

Eu olho da janela embaçada a tempestade que se forma e o vento que pode levar um bebê de dois quilos embora.
Fecho a janela e o fim de tarde abafado cola a roupa em meu corpo. Acendo um cigarro, e penso que parei de fumar "pero no mucho". Sou a Deusa do Pero no Mucholand. Feliz “pero no mucho”, trabalhando “pero no mucho”, satisfeita “pero no mucho”, ainda te amo “pero no mucho”.
Por aí vai, e começa a chuva, despenca de uma vez, os prédios encobertos pela névoa branca.
A fumaça quente do cigarro, o calor úmido pegajoso em meu corpo, os pensamento lentos me enterrando e eu sem forças para jogar a terra fora.
É isso, quando eu olho a chuva imagino todas as pessoas do mundo que por um segundo olham a água descendo para a terra e sentem-se mais sós, infelizes, ou simplesmente perdidas.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

balcão

Ela colocou o copo em cima do balcão e disse:

- ainda gosto dele. Mais até do que antes.

O nome disso, pensei em dizer, é cantina do vale. mas acabei não dizendo.
Ela colocou uma dose, bebeu, em seguida encheu o copo outra vez. Olhou para mim, fez que ia dizer algo, mas então sorriu alto, muito alto, e desceu as escadas, o cabelo caindo de lado, o andar meio trôpego e um cuidado enorme com o copo de vinho que ia levando.

RM

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Eu quero voltar mas o mundo não deixa

É começo de ano. Aquela vida janeiro, de esperanças exponenciais, e confesso que isso me deprime mais. Eu acho que perdi a mão e o sentido maior das frases. Eu deixo as flores murcharem longe de mim, não quero cuidar. Alguém me cobra atenção e eu desejo esquecer de tudo.
Eu ando cansada e sei que não faço nada. Eu gosto da solidão e da minhas peculiaridades que me tornam um ser recôndito e estranho. Eu ando pelas ruas do Centro e não procuro respostas.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

depois que a Lúcia morreu

Dia 13/10

Roberto, meu querido, acabei de chegar de salvador. Não sei o que acontece, mas a cada dia me sinto mais estranho naquela cidade. Muita gente, muitos carros, muito barulho, e tudo é tão caro, tão longe...desta vez, fui para dar um jeito na situação da Melissa. Na verdade, fui para ver como é que ela tá mesmo. Parece que se desentendeu com a dona do pensionato em que está morando e cismou que não quer mais ficar por lá. Coisas da sua afilhada, você conhece bem. De uma hora pra outra,k sem avisar, ficou cheia de opiniões. Os filhos crescem, né. De qualquer forma, se a Lúcia estivesse viva, garanto que situações assim não aconteceriam. Consegui um outro lugar, mais caro um pouco. Falta ela dar uma olhada pra ver se aprova. Talvez na próxima semana. Quase não tem tempo, a coitada, vive na casa de colegas, fazendo trabalhos. Aproveitei que estava na capital, como a gente falava antigamente, e fiz uns exames. Recebo pelo correio quando estiverem prontos. Modernidades. Desconfio que não estou muito mal, só essa tosse que incomoda, mas é sempre bom dar uma checada. Bom, tô ligando mesmo é pra lembrar daquele nosso esquema de domingo que vem. Tá de pé ainda?

Dia 15/10

Roberto, você não imagina quem apareceu aqui em casa hoje. Dona Miriam. Está bem acabadinha, mas a memória continua boa. Falou de mamãe, dos lençóis de retalhos que as duas faziam na varanda da nossa casa e de como nós aprontávamos naquela época. Está morando com uma filha, acho que a mais nova, Soraya. Encontrei com as duas no supermercado. Não esperava que aparecesse. Mas talvez tenha sido bom. Gosto das reminiscências. Quando ia embora, me abraçou e disse que eu estava a cara de papai. Achei estranho. Sempre me pareci mais com mamãe, era o que diziam. Não importa. Estou aqui me preparando para para ver o jogo do Brasil na tv. Depois que mudaram aquele zagueiro, parece que a coisa melhorou. Mas ainda não tô satisfeito. Hoje em dia parece que jogador não tem mais amor à camisa. E o esquema de domingo? Dá um retorno.

Dia 17/10

Roberto, sou eu. Tenho pensado muito nessa coisa de estar parecido com papai. Mesmo que eu parecesse mais com mamãe quando novo, é possível que, com o passar dos anos, certas feições que herdei de papai tenham se acentuado. Há muitos casos assim. Sei mesmo de uma família que, quanto mais o tempo passa, mais eles se parecem. Fiquei boa parte da manhã de frente pro espelho. Acho que meus olhos são mais puxados agora. Talvez seja problema de vista, não sei. Você deve estar achando essa conversa meio estranha, mas realmente estou convencido de que alguma mudança aconteceu. O que é que você acha? Me liga aí, porra...

Dia 18/10

Roberto, meu irmão, parece que nunca te encontro em casa, por onde é que anda? Tenho uns assuntos para conversar, saber sua opinião. A Melissa ligou ontem de noite. Diz que não quer mais ir para o pensionato que arranjei, vai dividir um apartamento com mais duas amigas. Tentei explicar que a situação está meio complicada, que já tinha a mensalidade da faculdade, mas ela fez um drama enorme, chegou a dizer que eu não a amava e que se a Lúcia estivesse viva iria entendê-la. Eu sei que não, mas não quis discutir. Vou me apertar, mas fazer o quê, não é mesmo? Coisas da vida. Por falar em aperto, viu o jogo do Brasil? Porcaria de time aquele. Se pudesse, mandaria todo mundo pro oriente, lá praquele lugar onde se toma chicotada quando se joga mal. Brincadeira, há,há... mas que a gente passa raiva, isso passa. E pensar que quando éramos moleques tínhamos um orgulho danado dessa camisa. Olha, sobre o esquema de amanhã, queria um retorno seu pra dizer o que é preciso comprar. Tenho pensado muito nessa viagem, mas nunca fui bom de organizar coisas, você sabe, fico apenas imaginando a gente lá, pescando robalo no cais, abrindo a casa velha, olhando as coisas que ficaram e sentando na varanda pra tomar uma cerveja e olhar o rio. Sempre fui meio sentimental, saudosista, você sabe, e depois que a Lúcia morreu fiquei um tanto sem chão. Difícil explicar assim. Sua natureza sempre foi diferente da minha, mais forte, auto-suficiente. Mas não quero te encher com os meus problemas. No domingo, iremos lá, será um dia apenas para matar a saudade. Vai ser ótimo, rapaz. Me liga tão logo chegue em casa, ta? Valeu... ah, outra coisa: Dona Miriam veio ontem outra vez, tocou a campainha durante uns cinco minutos, mas eu não atendi. Não sei porquê. O problema foi segurar a vontade de tossir. Coloquei uma toalha no rosto, mas achei que ela, mesmo assim, estava escutando. Fiquei sem saber se escutou realmente. Se encontrá-la no supermercado, digo que estava com uma gripe ou qualquer coisa do tipo. Bom, era isso. Se puder, dá um retorno. Mas acho que posso ir adiantando alguns detalhes antes de você ligar...



Rodrigo Melo

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Des-geração

Ele acordou sem saber e olhou no espelho. Abriu a torneira e lavou o rosto, mas continuou do mesmo jeito. Nem acreditou. O banheiro parecia a sucursal do inferninho do centro. Era tanta cueca espalhada que ele nem acreditou que eram todas de sua bunda. A escova de dentes amarelada dizia que era hora de consultar um dentista para não precisar de dentadura aos 30 anos. A roupa mais limpa estaria, provavelmente, no fundo do cesto abarrotado. Não sabia se era da azia ou da dor de cabeça, mas precisava vomitar. Dias de ressaca é isso, uma grande vontade de expelir os orgãos internos inteiros na privada. Dar uma descarga e encaminha-los ao rio Tietê, juntamente dos demais dejetos expelidos por todas as famílias sorridentes que atulhavam os parques aos domingos. Quem sabe pedir um transplante mais tarde, viver uma vida de retalhos humanos salvaria o arremedo que ele arrastava pelo apartamento naquela manhã natimorta.

Cigarros, aos montes, atolavam os cinzeiros, assim como os restos de cerveja. Estavam à disposição de algum desesperado que ousasse se utilizar dos restos mortais de noites retrasadas e cansadas. Podia, sim, voltar para a cama e rezar para acordar no paraíso muçulmano de mulheres com olhos rasgados e tez bronzeada, oferecendo-lhe orgasmos eternos. Mas ele era um filho da puta ocidental, de modo que a pós-vida seria uma coisa chata e tediosa com o soundtrack da Enya com diarréia cósmica. Passaria a eternidade dialogando com anjos de pintos pequenos e roliços que nem um viado ousaria utilizar.

Queria telefonar para algum S.O.S. aos suicidas, mais um dos serviços indispensáveis a vida moderna, mas o telefone havia sido cortado. Afinal, ou se bebe ou se paga o telefone. No caso a escolha é óbvia.

Se voltasse para a casa dos seus pais poderia tomar um banho quente com sabonete perfumado, almoçar com talheres em um prato, e arrotar a abundância que ele nunca ousara procurar nos classificados dos jornais. Mas lembrou do que vira no espelho e desistiu, sua mãe sofreria mais um desgosto e enfartaria. Não suportava o olhar de frustração da sua mãe: “Qual foi meu erro?”. Do princípio: Casar com aquele babaca do meu pai que fica com a pança na carroceria do carro aos domingos, lavando os louros da vida burguesa. Depois, ter um filho e achar que ele poderia ser diferente dos demais fracassados dos rebentos vizinhos. Pois, então, mamãe, o seu erro foi acreditar na glória da esperança secular.

Sentiu o gosto do bife a role, mas desistiu, não poderia corroborar aquilo que a senhora de grandes tetas esparramadas sabia no seu íntimo e infinito feminino. As mulheres eram foda. Por isso elas batiam a porta e quebravam pratos na parede. Há até certa histeria, mas ele reagiria da mesma forma se não tivesse a cabeça de baixo tão importante em detrimento de sua sinapse. Achou um livro abandonado ao lado do vaso sanitário que alguém havia dado a ele. Mas os óculos não estavam lá, assim adiaria para o próximo século a leitura de mais uma relíquia da humanidade.

Se ainda tivesse alguma dignidade, enfiaria a cabeça no fogão e asfixiaria. Mas não tinha gás. Pôrra, que merda que ele era afinal?
Bianca Rosolem

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

CATACUMBA

Um pouco viva. Acendo a luz e não abro a janela com receio de sentir gelar ainda mais os ossos. Tomei uma colherada de óleo de fígado de bacalhau e fiquei olhando a geladeira e nada me apeteceu. Deitei embaixo dos cobertores e esfreguei os pés de uma maneira única que faço, devagar, como um embalo ancestral de sono. Ali, o sono chegou enquanto o calor aquecia o suficiente para dormir e párar de sentir o que não sinto.
Acordei com mais sono, sentei no computador e não tinhas histórias para contar. Vazia, oca, minha mente é do tamanho de comprimidos que engulo sem muito questionar. Eu só tenho que me adaptar e controlar.
Controle, acho que é tudo isso.
Então, olhei para a minha rosa ainda botão, caída, nem vivia ainda e já de cabeça baixa desistia. Heroicamente desliguei as luzes abri bem aos poucos as cortinas. Decidi que mesmo se for a tristeza de viver descontralada e fora dos padrões, única e isolada em um casulo solitário, a existência daquela flor ainda merecia vez. Seremos então, as duas, de cabeça erguida, do jeito que se é.
Nem sempre nós salvamos sozinhas.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Mais devagar, ou não.

“As coisas não andam boas por aqui”, ele disse me olhando daquele jeito. Eu o ouvia enquanto fingia colocar ordem na bagunça da sala. Era só uma maneira de ouvi-lo sem envolver-me demais. “Fernando, meu querido, o nosso erro foi querer demais”, eu disse e me arrependi. Era uma grande bobagem e uma resignação decadente acreditar que os sonhos que nos moveram e nos enterraram foram grandes demais.(...)

Queridos o restante do texto está lá no www.blonicas.zip.net

sábado, 6 de setembro de 2008

eles bem que me avisaram

Ele veio ontem, no final da tarde. Eu fazia algumas anotações. Entrou na sala, puxou uma cadeira e se sentou. Perguntou se eu me chamava Alberto Rivas. Eu disse que não e ele então ficou me encarando por um longo tempo, balançando a cabeça numa espécie de tique nervoso. Tinha os cabelos compridos, a barba por fazer e vestia uma camisa de botões branca, suja na gola, uma calça marrom e botas.

- Tem cigarro? – perguntou.

Tirei um cigarro do bolso, puxei o isqueiro e passei para ele. Seus olhos fixaram- se na chama. Era um sujeito estranho, talvez vindo de longe, trazendo consigo a poeira e algo já não muito esperado. As surpresas da vida, quem sabe. Minha mente, de alguma forma, fora sempre fértil demais.

- Não queria ser fumante... – ele disse -... mas alguns problemas, compreende?
- Hum-hum - respondi.
- Alguns probleminhas aí... – repetiu.

Ficou olhando a sala e tragando o cigarro, a mão tremendo no caminho entre a boca e o cinzeiro.

- E em que posso ajudar? – perguntei.
- Depende – ele disse. - Você trabalha com o quê mesmo? Não li a plaquinha na entrada, desculpe.
- Sou corretor de imóveis. Rômulo Antunes. Tem na placa.
- Entendo, vende carros, casas...
- Casas.
- Ah... E alguma dessas que você vende é de frente pro mar? Sempre quis ter uma casa de frente pro mar. Uma varanda, as pessoas tomando sol lá embaixo... Se algo desse errado, pegaria um barco e viajaria pelo mundo... Que acha?
- Não tenho nenhuma casa assim, infelizmente. Só apartamentos no subúrbio, kitinetes.
- Mas eu me interesso por kitinetes também. Coloco para alugar. Uma outra opção de renda. Já estou cansado da vida que levo...
- Muita gente passa por isso.
- Aposto que a maioria não passa pelas coisas que tenho que passar, acredite. Mas, então,... O que eu teria de fazer, ou não fazer, para possuir uma kitinete dessas? Estou disposto a negociar.

Achei esquisito aquele papo, ainda por cima aquele tique que tinha, às vezes mais forte, demorando um tempo maior para acabar, o rosto se contorcendo como o rosto de um homem que luta contra algo muito maior do que ele.

- Posso mostrar fotos e os preços, no caso de haver interesse.

Ele sorriu estranhamente. Talvez fosse mesmo louco, pensei.

- Você está dificultando as coisas, Alberto. Não me importam os preços.
- Não sou esse Alberto, já falei.
- É claro que não é.

Não era, de fato, uma figura inteiramente estranha, mas isso por seu lado não significava muita coisa: milhares de pessoas são parecidas umas com as outras, há ainda a possibilidade dos jornais, da internet...


- Olha, eu nunca te vi antes. Com todo respeito, o senhor é um completo estranho para mim.Qual o seu nome mesmo? – falei, já um tanto farto do meu tempo perdido.
- Viu, sim, Alberto, apenas não se lembra mais – falou, mirando-me nos olhos, como se tivesse absoluta certeza daquilo.
- Qual o seu nome? – perguntei outra vez.

Ele virou- se e olhou pela janela. Não havia nada lá fora, exceto a chuva e o vulto dos prédios do centro.

- Firmino – falou, embora eu não tivesse acreditado.

- Não conheço nenhum Firmino. Você se enganou de sala. Ou de prédio... Posso te provar...

Puxei a minha identidade do bolso e mostrei para ele. Era nova, eu havia tirado-a há cerca de dois meses. Ele olhou- a rapidamente, então me devolveu. A cinza do cigarro, entre os seus dedos, fazia uma curva no ar.

- Eles bem que me avisaram para ir com calma.
- Eles quem?
- Você sabe...
- Não sei!
- É claro que sabe, Alberto.

Eu me aborrecia cada vez mais com aquela situação – o que fazer para se viver em paz? Correr e chamar o segurança? Pular sobre a mesa e, antes que ele reagisse, acertar uma direita em seu queixo? Talvez estivesse armado. Tudo era possível na minha imaginação.
Enquanto eu pensava sobre o que fazer, o telefone repentinamente tocou. Era alguém interessado num terreno. Abaixei- me e abri a gaveta, à procura da pasta e dos papéis com as informações dos imóveis. Nunca fui muito organizado com gavetas e papéis. Quando levantei-me novamente, ele já não estava mais lá.
Tudo aconteceu muito rapidamente. Não havia bilhete, a ponta do cigarro que ele estava fumando, nada. Por um instante imaginei que eu é que poderia estar louco.
Então levantei-me, peguei algumas coisas que precisava e fui para o apartamento que alugara ali perto. Fiz uma pequena mala, tomei banho e em poucos minutos desci. Não me importava quem ele era ou se o seu nome era mesmo aquele. Eu teria que fugir outra vez.

Rodrigo Melo

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

APARTAMENTO 12

Uma voz sussura na porta ao lado. Algumas tímidas batidas como se tivesse medo de quebrar algo. Trago o cigarro mais uma vez e mantenho-me em silêncio antes de abrir a porta. Ela não deveria estar aqui, vir aqui. Eu disse pra ela. Logo reconheci a voz que sussurava, mesmo antes eu sabia que era ela, que só poderia ser ela. Eu tinha-lhe dito que não era para ela vir ao Motel.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

A vida não é um livro de capa colorida

Vá ler auto-ajuda, conselhos sobre pensar positivo enquanto o mundo desaba em misérias e aos 28 anos seu bem mais precioso é um ipod. A justiça é uma grande mentira, a subjetividade de algum filho da puta que quer se dar bem. A vida tá cheia de parasitas, respirando esse ar infecto e dando esbarrões no metrô para chegar mais rápido numa casa de bosta. Enche a cara, pensa na juventude que nunca foi. Tá fodido, cara. Você pensa em se matar e fulano acha a parada "barra pesada". Eu acho que o mundo vê muita sessão da tarde e revistas com fotos de gente bonita com vestidos da Versace, que na minha opinião são bregas pra caraleo. Ainda um otário que nunca olhou na sua cara quer entender o motivo e deduz que você quer vingança. Quando na verdade você já está tão magoado que não entende o que é amor e se ele pode realmente existir nesse mundo de merda. Aqui só existe vaidade, ambição, egoísmo.
Te conto uma coisa maluca, parei o carro na banca de flores da Dr. Arnaldo e lá eu pedi gérberas amarelas que eu ganhei ainda decoradas. O cara fez do coração. Acho que ele viu lá dentro alguma coisa triste que ele também tem. E desse jeito ele me ajudou e não se sentiu tão só nessa confusão de mundo

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

LA REVANCHE DEL TANGO

Em breve sairá pela Mojo Books (http://www.mojobooks.com.br/),
LA REVANCHE DEL TANGO” de Emerson Wiskow

terça-feira, 26 de agosto de 2008

LICENÇA PARA SER CLICHÊ

As flores estavam murchas e sem água. Eu esqueci mais uma vez. Talvez eu abra uma fresta da janela e mude o cd. O calendário ainda está em janeiro. O relógio da cozinha parou há muito tempo.
Tempos estranhos por aqui. Prozac ou Gugu, uma felicidade idiota nos sorrisos clareados. Conversas de elevador sufocam de perfume francês as sete da manhã. Espremida, minha vida rende piadas no bar e linhas irônicas. Há algo de fantástico nisso, eu acho, me disseram. Nem lembro se foi este ano. Tenho uma pilha de livros para ler e não saio dos sebos da redondeza. Acho tudo muito barato e bonito, basta andar por aí para se ver. Se ao menos eu gostasse de colocar pôsteres no quarto...Mas não, até as fotos eu tirei.
Esquecendo de esquecer, eu lembro cada dia mais. Eu posso dizer “Ô gente chata ducaralho”, mas prefiro pedir uma cerveja e sorrir. Abraço algumas pessoas e penso se elas podem estar realmente vivas fedendo daquele jeito. Tenho milhares de opções mas fico só com três. E ainda quero me livrar destas. Passo o ponto.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

A OBVIEDADE DO AMOR

"Eu pintava as unhas dos pés de cor-de-rosa velho enquanto você colocava as calças. E fiquei olhando você as vestindo, sempre tão do mesmo jeito, que acabei por borrar a unha do dedinho que é pequena e difícil. Porra! Você sempre com tanta pressa e eu ainda com a toalha enrolada no cabelo.Aí você senta com aquela cara de “vai demorar a vida toda, né” e fica olhando para a T.V. Eu passo peladinha na sua frente, andando com os dedinhos do pé para cima para que não borrem, e você apenas move a cabeça para ver alguma gostosa do programa de domingo rebolar. Eu não sei muito bem o desenrolar da história, digo, como todo esse poder do corpo feminino siliconado-rebolativo aniquilou a sensualidade da mulher que anda nua com as unhas dos pés cor-de-rosa. (...)"

Queridos, o restante do conto está todinho no novo endereço que publico, passem por lá: www.blonicas.zip.net

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

PAPEL CARBONO

Eu fiquei sem saber como escrever.
Eu queria tanto ser tocada da sabedoria incomum, para usar as palavras que somente existem em algum lugar, muito longe do todo, apenas o distante pode expressar.
E se você não as compreendesse, eu as imprimiria através de beijos de brasas e fome por todo seu corpo.
E então, derrubaria do céu a chuva fina da madrugada que molha, suave, o guarda-chuva que a alma de poeta não carrega.
Quem sabe tiraria você para dançar aquela música sussurrada e profana que percorre as esquinas e que somente nós ouviríamos.
Eu pertenceria a você dissolvida em seu sangue, em seu gozo e em sua saliva.
E dali eu nasceria todo dia como o sorriso que você marcou no carbono da minha emoção. E saberia.
A sua. Toda sou: Sua.
Nua eu viveria de sua impressão sem pressa sobre meu corpo. Sem pedir para acabar. Sem querer o fim.
Eu derramarei uma lágrima pesada se isto, daquelas de olho que não quer fechar. De algo que não deseja doer.
Do seu amor furtivo, escondido entre os lençóis e cortinas do seu palco, eu guardo o toque e o gosto da felicidade.
Quando longe, esperando o chamar do telefone, meu corpo é como folha avulsa e em branco sobre a mesa. Para, então, ouvir sua voz: púrpura risca para colorir o meu prazer.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

ECO

Uma das luzes do corredor não funcionava direito, piscava três vezes, como numa espécie de aviso, e então se acendia completamente, clareando boa parte do caminho, para cinco segundos depois voltar a piscar outra vez. Edgar já passara centenas de vezes por aquele corredor, mas talvez nunca tivesse reparado naquilo. Sua cabeça sempre cheia de coisas. Abriu a porta de uma das salas e entrou. Com os braços e pernas amarrados numa cadeira, um homem jazia, a cabeça pendendo para frente, nu. Edgar olhou-o com atenção, curiosidade, porém uma curiosidade comum, costumeira. Acendeu um cigarro e circulou ao redor da sala, notando as cicatrizes no corpo do sujeito. Não gostava de estar ali, do cheiro que aquelas salas tinham, um misto de suor, sangue, fezes e urina. As paredes também eram escuras, mofadas, e davam-lhe uma sensação estranha, um distanciamento da vida e de tudo o que ocorria lá fora. Caminhou até uma extremidade e pegou um pedaço de pau, quase um bastão, que ficava num canto. Cutucou o homem sobre a cadeira, mas ele continuou imóvel, com a cabeça caída. Por um instante, olhou para o relógio no pulso: eram quatro e quinze da tarde. Lembrou que estacionara o carro num lugar proibido e calculou a quantidade de multas que já recebera. Então cutucou o homem mais uma vez, agora mais forte, e ele se mexeu, virando a cabeça e o olhando com aqueles olhos inchados e escuros.

- Algoa – o homem murmurou, a voz rouca, quase não saindo.

Edgar andou até a porta. Num canto, um balde repleto de um líquido de cor marrom que ele mesmo não sabia dizer o que era. Segurou o balde e, aproximando-se do homem, jogou todo o líquido no rosto dele. Mesmo amarrado, o outro contorceu-se e gritou coisas sem sentido, girando a cabeça desesperadamente para os lados, e Edgar puxou uma outra cadeira e sentou-se de frente para ele.

- Quer falar? Já não basta? – disse.

Havia sangue coagulado no chão e também por todo aquele rosto disforme, o corpo já muito magro feito um faquir.

- Você pode sair daqui quando quiser, Jorge, só precisa cooperar um pouco. Consegue entender isso?

Jorge não respondeu. Não sabia onde estava, mas imaginava quem eram aqueles homens que há dias lhe faziam perguntas. Lembrou-se da mulher, dos cuidados que ela lhe pedia para ter e que ele não tivera.

- Jorge, você só precisa dizer um nome e te deixamos em paz – Edgar disse, acendendo outro cigarro.

As mãos de Jorge, antes tão bonitas, as mãos de um Jovem sonhador, tinham agora um aspecto estranho, pareciam um pouco cinzas, um pouco amarelas, os nós dos dedos saltando, tão grandes.

- laur... – ele disse.
- Como? Edgar levantou-se, aproximando o seu rosto ao do outro.
- Lauro... – Jorge falou, tremendo de frio e de fome, de dor e de medo também, mas sobretudo pela fraqueza que jamais imaginara ter.

- Lauro de quê? Diz, porra, Lauro de quê?!
-... Diniz...

Então Edgar levantou-se,seus olhos brilhando feito imensas constelações, e imediatamente tirou o celular do bolso e discou um número.

- Oi. Consegui o nome do canalha... Sim... Lauro Diniz, sabe quem é?... Bom...Não, não, pode fazer. Qualquer coisa você me liga. Ta.

Guardou o telefone e encarou o outro sentado na cadeira. Aquele cheiro no ar continuava, forte, ruim, o cheiro de quem não presta, pensou. Levou as mãos às costas e puxou o taurus. Olhou-o por um instante – ganhara-o há alguns anos, presente de um superior. Então virou-se e apontou a arma para a cabeça de Jorge e deu um tiro. O barulho ecoou pela sala, mas depois de alguns segundos o silêncio predominou: ficou apenas aquele eco distante, de algo feito a quilômetros dali. Ninguém apareceria, de qualquer forma. Quase sorriu ao pensar nisso. Em seguida olhou para o relógio: eram quinze para as cinco da tarde. Guardou o taurus, abriu a porta da sala e voltou pelo mesmo corredor - a lâmpada piscando uma, duas, três vezes, de repente acendendo-se num clarão, para logo depois voltar a piscar outra vez.

Rodrigo Melo

BUNDAS SIAMESAS

(Uma odisséia sobre mulheres de seios fartos e ancas largas)

Parte I

Um dia quente, úmido, abafado e viscoso, a roupa colava no corpo. Até as paredes suavam. Cássia Alessandra, enorme, deitada na cama observava a chuva se formando ao longe. A camisola de gestante grudava no corpo. Ela fechou os olhos e rezou para que suas bebês resolvessem nascer logo. Mesmo que fosse naquele dia, e o dilúvio que ameaçava a terra caísse e levasse todas as casas da rua. Por bem, ou por mal, já não agüentava mais a gestação pesada de duas crianças. Olhou seu corpo disforme e inchado, e da maneira que estava recostada no travesseiro não via sequer o dedão do pé. Apenas enxergava a imensa lua de sua barriga. Estendeu os braços e sentiu o suor escorrer de sua axila, alcançou o copo d água sobre o criado-mudo. Esse esforço foi o suficiente para que a bolsa rompesse e inundasse o colchão. Adelino, o marido, saiu correndo em busca de sua mulher que berrava “vai nascer, vai nascer”, largando a TV ligada e o final do campeonato brasileiro.
No hospital, depois de anestesia, choro e desmaios, cortaram a barriga para de lá tirarem o que chamam na ciência bizarra de xifópagas. Se não bastassem gêmeas idênticas, ainda eram grudadas. E o mais curioso é que as bebês uniam-se pelas nádegas. Melhor dizendo, cada uma tinha sua nádega, isto é, cada uma tinha seu ânus, porém na altura da carne que forma a protuberância chamada “bunda”, quase nas costas, elas estavam grudadinhas. Seu Adelino rezou e pediu perdão; Cássia Alessandra fez promessa. As bebês passaram por cinco minutos no jornal da noite na TV, a mãe chorou e o pai apenas pediu ajuda. O Bairro comovido fez novena e procissão. No final, Karla Adriana e Keila Cristina – já registradas no cartório da região - foram separadas e a nádega comum foi igualmente divida.
O pai muito preocupado com toda a repercussão, logo tratou de estabelecer medidas que atenuassem o trauma que toda a situação poderia infligir em suas meninas. Assim, desde cedo, Adelino colocava sapatos pesados – que ele próprio criara em sua oficina - para que as meninas forçassem a musculatura dos glúteos de forma que essa se hiper-desenvolvesse. Adelino sabia bem como mulheres ‘sem bunda’ eram preteridas na sociedade. Desta maneira, utilizou de todos os artifícios para que nunca alguém na rua apontasse para suas meninas e as ridicularizasse por compartilharem a mesma bunda, pouco restando então a cada uma.
Alimentação rigorosa, com muita proteína, leite, e claras de ovo, ainda exercícios localizados, constituía a rotina das meninas. A mãe nunca mais pensou em ter outros filhos, pois acreditava que seu ventre era amaldiçoado. Foi perdendo o juízo, e terminou no quarto dos fundos, antes a oficina de Adelino, bordando roupas para a Igreja enquanto cantava hinos evangélicos.
Mesmo a mãe ausente e um pai onipresente, não impediram que as gêmeas desfrutassem de sua condição. Viviam de troca com os pais, sendo que por meses eles tomavam Karla por Keila e vice-versa. Assim, era na escola, nas brincadeiras da rua, e mais tarde, nos primeiros namorinhos de mão.
Logo, quando com 14 anos a obstinação de Adelino mostrou seu resultado. Todos os rapazes da rua queriam namorar as Gêmeas Bundanesas, como então ficaram conhecidas. Nessa idade já eram madrinhas do bloco de carnaval e o pai batia palmas, orgulhoso, quando elas desfilavam seus traseiros fartos – 116 centímentros – pelas ruas do bairro em minúsculo biquíni.
Porém, essa aparente conduta libertina do pai não ia além do exibicionismo do predicado das moças. As gêmeas bundanesas desfilavam micro shorts, vestidos e saias minúsculos, mas ninguém podia tocá-las sem expressa permissão. Esse misto de erotismo e proibição criou uma aura mágica em torno das gêmeas. Se não bastasse a sua condição de igualdade física, elas ainda desfrutavam de toda a mítica criada em suas vidas. Cientes de seu poder, elas causaram mais confusão que o comando criminoso que dominava a região.
Brigas, fins de casamento, até morte. As gêmeas bundanesas eram lenda na cidade inteira quando completaram dezoito anos. Na festa, Adelino, incrivelmente feliz, bebeu, comeu, sambou e quando já estava muito cansado sentiu o luto de sua mulher recriminando tanta alegria. Olhou para o quartinho fechado desde sua morte e então teve a impressão de que lá ela ainda estivesse. Cansado, dominado pelo sono, cochilou na cadeira.
Alguns minutos depois chamavam os bombeiros. Adelino morreu de olhos já fechados.

As gêmeas bundanesas, as mulheres mais fartas e ancudas da história da cidade, estavam livres.


terça-feira, 15 de julho de 2008

Corredor e baratas numa noite insone

Meia noite e exatos dois minutos. No Corredor pouco iluminado, apenas o escritor e uma barata que vaga parecendo não ter rumo. Ela encontra uma fenda entre a parede, um pequeno buraco ou passagem para o que pode ser sua moradia e entra. Desaparece. O escritor retira sua chave do bolso e assim que coloca-a na fechadura encontra um bilhete enfiado embaixo da porta. Ele pega o bilhete e lê. "Gostaria muito de ter o prazer de conhecê-lo. Adoraria que você aceitasse tomar um café comigo. Com carinho, Sueli. Apartamento número 12". Com o bilhete na mão o escritor entra em seu apartamento e some. Desaparece. Fica imaginando quem seria a mulher do apartamento número doze.
Apartamento número 12. Meia noite e trinta minutos.
Sueli revira na cama, fuma e esquece as baratas.
Wiskow

domingo, 13 de julho de 2008

COLOSTRO

Não deu pra ver direito, mas creio que era “ciclo de sucção-degustação”. As letras pequenas, as palavras trocadas tão rapidamente que mal dava para acompanhar a velocidade do data show: uma palestrante explicando sobre mamadas e a forma certa de se banhar um bebê. Enquanto isso, um monte de mulheres grávidas, todas com os olhos e ouvidos atentos, vez por outra levantando-se para ir ao sanitário ou ao bebedouro, circulando pra lá e pra cá feito pingüins em marcha, os pés inchados, as barrigas enormes, preocupações.
Eu, discreto num canto, enganava o sono e tentava me entrosar ao ambiente, embora desconfiado de que não possuía muito jeito pra esses momentos sociais. Meu talento, como se diz, sempre se resumiu a disfarçar o meu desapego e o meu distanciamento em relação às formalidades e/ou obrigações. Levei a vida na xinxa, na minha, como quem não entendeu o recado muito bem.
O caso, no entanto, é que minha esposa, por demais inteligente e carinhosa, estava a duas horas sentada na cadeira ao lado, com a barriga imensa, atenta a qualquer explicação. Eu a olhava com aqueles olhos miúdos e me achava um tanto culpado por não entender tudo o que a palestrante lá na frente dizia. Eram termos novos, difíceis pra mim, e eu me sentia como se estivesse numa reunião da NASA, todas aquelas mulheres sendo um pouco astrônomos ou astronautas geniais.
- E o colostro, alguém sabe dizer porquê é tão importante para o recém-nascido?
Ninguém sabia, mas também não tinha importância, era a hora do intervalo. Numa sala ao lado, sucos e salgadinhos esperavam pelas ansiosas e esfomeadas gestantes. Garçons distribuíam copos e guardanapos. Num canto, uma senhora cortava e colocava em pratos plásticos alguns pedaços de bolo. Tudo havia sido preparado com muito capricho, carinho. E então aqueles pingüins de batas e vestidos estufados aproximaram-se, curvaram-se sobre a mesa e em menos de cinco minutos não havia mais nada ali, apenas farelos e papel. A sala recendia a Hiroshima após a grande bomba. Coisas da vida. Num banco de madeira que ficava perto da mesa de sucos, minha esposa conversava com algumas novas amigas – pratinhos no colo, boca cheia, resto de queijo na ponta do nariz. Eu, discretamente, mordisquei uma empadinha de ricota, fria e quase sem gosto, numas de interagir.
Rodrigo Melo

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Jukebox

Eu quis chorar e disfarcei olhando para o balcão com os olhos imóveis. Tudo parecia mais despedida com aquela luz entrecortada pelo movimento do ventilador de teto. Poucas pessoas no bar àquela hora. E mesmo assim eu só conseguia ver você com aquela jaqueta de couro falsa. Aos meus pés, a mala de roupas e um buraco enorme. Um precipício. Tudo mais uma vez desconhecido. Uma porta do bar é fechada, faz aquele barulho de fim de tudo. E eu quero correr o tempo de volta. Virar a ampulheta e te encontrar. Novo começo. Quando, ainda, a história não havia encoberto o seu sorriso em nuvens de tristeza. Que momento esse seria, se naquele esbarrão do metrô, mesmo gentil em nosso primeiro encontro, já existia um cinza estranho projetado no seu olhar?
Eu não sei, são tantos e todos os eventos na vida do ser humano. Tantas peças, nunca soube juntá-las. Nem sequer as minhas. Vide essa mala, sempre de lá pra cá, semi-aberta. Nada que carrego. Um vestido, uma sandália e uma caixinha de lembrar. E mesmo assim a mala parece tão pesada e pequena. Vai entender.
E você diante de mim, agora, segurando o copo de alma selada. Sem nada falar. Mas, o único mistério, é essa sombra maior que seu corpo projeta na minha existência. E eu fico aqui, apagada, protegendo a mala da gente estranha desse bar na estação de trem. É madrugada, fria, gelando a ponta do nariz e doendo no coração. Eu tento decifrar, mas apenas me perco em considerações pessoais. Sobre você, tudo é tão simples que dói. Então, só me resta fantasiar alguma teoria louca, sobre o cinza das nuvens de inverno. Aqueles dias sem fim de frio e pouca cor. Como essa vida que mora atrás do teu olhar. Nessa maldita madrugada.
Gasto um pouco de todo o dinheiro que tenho - contado para não morrer tão cedo – e coloco uma música na jukebox. Chamo você para dançar, não falo, apenas estendo a mão e te lambo com o olhar. Você me conforta no peito, e mexe as pernas muito devagar. Nós nos despedimos assim.
Sem encontrar o nosso passo.

domingo, 6 de julho de 2008

BURACO

Talvez seja culpa desses tempos, tão estranhos, ou então do mundo, que não poupa ninguém. Ou da natureza dos dois: eles, como tantos, tão vulneráveis – loucos e ao mesmo tempo lúcidos, distantes mas tão próximos, levando a vida como se ela fosse a letra de uma música, filmes que passam na tv.
E esse jeito inconseqüente, necessário demais quando se divide uma cama, um coração. Enquanto a chuva cai.

- Você sabe que não posso ter filhos, não sabe?

O tempo que corre e as coisas que a gente nunca sabe se deve sentir.

- Já tentei, fiz tratamento. Até simpatia. Você sabe, não é?
- Por que isso?
- Nunca consegui – diz, distraída, olhando, por cima dos ombros dele, um quadro que ganhou de alguém: o rosto forte, de mulher, uma certeza naquele olhar...

Então se encaram. Os olhos claros que ele tem, ela pensa, tão bonitos.

- Porquê ta perguntando isso agora?
- Não sei... Quando você acaba... Nunca acaba dentro de mim... Me sinto estranha.

O céu encoberto, por detrás das vidraças, cheio de nuvens e de ventos frios, um céu cor de chumbo, triste, o céu dos dois. Têm dias em que a gente se sente tão pequeno. Talvez essa natureza que herdei de meu pai, ela pensa, ele que sofre até hoje. Olha para as gotas no vidro da janela, uma juntando-se à outra e seguindo o caminho até o parapeito encharcado. Há tantas coisas para se fazer, mas ela não têm ânimo, vontade, lhe falta ainda fome, sono, algo para tapar o buraco que sente ter. Queria ser como ele é. Ou como ela, no quadro.

- Sabia? – pergunta outra vez, já sem esperanças.

Ele olha para o celular, confere as horas. Talvez sozinha ela esteja melhor. Nunca as entendeu muito bem, de qualquer maneira, e havia se acostumado a isso. Enquanto desce as escadas, acende um cigarro, pensando que mesmo antes de conhece-la já era um tanto assim.
Rodrigo Melo

sábado, 28 de junho de 2008

MAIS UM DIA, MAIS UMA, FOI, CONTINUA

"Vamos nos salvar! Segura ali, naquele arremedo de existência, enquanto a noite mostra que é só mais um dia depois...
Mas, escuta... Fica parado, encosta aqui... Eu vejo tudo se desintegrar e todos estão tão perdidos quanto nós.
Não há verdade além dessa embriaguez que consome todas as minhas esperanças... .
Eu já não vejo o amor como nas belas canções... Tão solitárias... .
Nós somos esta conversa entrecortada... Sem nexo, sem fim, sem começo.
Se eu soubesse a resposta, se eu não me sufocasse em indagações sem saber...
Meu Deus, onde você estará agora?
Eu gritei e ninguém ouviu do outro lado do balcão.
Eu quis prolongar este segundo maior, este momento que poderia ter sentido, eu racionalizo em palavras que jamais exprimiriam a verdade maior do meu peito... Peito?
Se eu ainda tivesse um, mas é apenas um estraçalhado cá e lá, farrapos que eu tento costurar nesta tarefa humana demais... E eu?
PORRA!
Eu não quero nada disso, eu quero sentir a vida crescendo para nada ser além desse sorriso na janela... E o seu dia como memória da vida...
Eu quero amar e guardar retratos em branco e preto do que nunca poderia ter sido perfeito...
Eu sou humana. E tudo é tão longe.
Minha mão aqui, sem sabedoria, sem palavras para dizer... .
Ao redor, apenas a bagunça de muitos dias, as memórias do que nunca foi bom e o seu fantasma sussurrando delirante no corredor.
Se eu sou feliz?
Eu sou viva, e todas as minhas histórias me fazem cantar uma música que ninguém conheceu.
Eu quero dizer para ninguém ouvir.
Eu quero ser humildemente,
Derrotadamente,
LIVRE! "

domingo, 22 de junho de 2008

Choro seco

Hoje eu dormi muito e acordei mais cansada. Sinto ainda o ritmo estranho do meu coração e tenho medo de morrer a qualquer instante de uma maneira dolorosa e estranha. Existe uma vontade imensa de chorar e acredito que isso aliviaria essa angústia. Mas nem isso consigo, toda essa gente me roubou até isto. Já não choro, não sinto, ando apática por aí. Às vezes penso que estou feliz. Mas não estou. Não sei para onde ir. Hoje mudei o caminho para chegar ao trabalho, as ruas eram diferentes, mas sem novidades. Por que você não olha para mim quando fala comigo?
Eu ainda tenho algumas coisas para acreditar, mas as escondo de nós. Só isso me resta. Estou triste enquanto a chuva seca na janela, fumo um cigarro. Não falei com muita gente. Eu caminho por aí e finjo satisfação enquanto engulo comprimidos. Eu sorrio também, e me sinto mais triste quando isso acontece. Na maioria das vezes faço isso porque sei que as pessoas esperam. Elas esperam e eu dou. Tenho nojo.
Sinto falta e saudades de tudo que não conhecia. Hoje tudo é velho e sem motivo. Sei que é perda de tempo, que é mentira e irreal. Tanto a minha felicidade quanto a minha tristeza são meros frutos do meu teatro psicológico. Eu não vivo para isso, eu invento. Eu senti algo uma vez e guardei na gaveta junto com o bolor da sua existência.
Acredito que ainda vou aprender mais algumas coisas. Eu aprendo rápido e enjôo da lição também. Gosto de algumas pessoas e as deixo perto de mim. Elas sabem. E entendem, poucas.
Poucas são as virtudes, mas elas são. Eu me importo demais, eu penso demais. Eu vivo demais.
Eu tenho uma força maior que eu mesma que me sufoca até um grito sem voz. Eu chorava no escuro quando tudo morria ao meu redor. Mas ainda está guardado, em algum lugar. "Deus", estará por mim, então?
Ainda caminharei solitária e feliz na imensidão das formigas, hoje sonhei com elas. Hoje eu rezei por algo melhor. Eu quis acreditar por nós. Mas vejo a água descendo lenta pelo ralo da pia, escorrendo, escorrendo. A vida, a vida.
Algum badalar distante, eu vejo...Longe. Choro seco.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Pereu de Aghbor

O rei Pereu de Aghbor ganhou batalhas, invadiu cidades, saqueou tesouros. Dentre as escravas, escolhia sempre as mais carnudas, com bunda e seios fartos.

- Essa daí, ó – e apontava.

Às vezes chegava a escolher 4 ou 5 por noite. Não dava no couro, mas achava que a fama valia sempre mais do que os fatos em si, e assim era. Não raro, atribuíam-lhe uma paternidadezinha, que ele, de bom grado, assumia. Quando morreu, aos 58 anos, por conta de uma dor na barriga que era pior do que qualquer lâmina de espada adentrando a nossa carne, Pereu era o comandante supremo de centenas de vilas, dezenas de cidades, alguns continentes; possuía palácios suntuosos, castelos; quadros pintados pelos melhores artistas, e, dizem, era pai de 707 filhos, alguns de pele negra ou albina, os olhos puxados, os cabelos encrespando no cucurute. Quando seu corpo foi velado e passou pela última vez pelas ruas de Ághatars, dizem que a multidão cantava, enquanto abria caminho para o cortejo passar:

- Salve Pereu de Aghbor, guerreiro fodião e miscigenador!!!
Rodrigo Mello

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Um homem de sorte

Todas as marcas do teu cigarro serão esquecidas num cinzeiro repleto de baganas
Motel 3:hs da madrugada
Medina Valdez chegou ao motel no meio da madrugada com uma prostituta, conheceu-a naquela mesma noite em uma boate. Depois de alguns drinks, cigarros e risadas, Medina resolveu levá-la para passar a noite em sua companhia no motel que está hospedado. Medina já se imagina enfiando-lhe entre a bunda. Ele enlaça a mulher de longo cabelo preto, desgrenhado ao chegarem na portaria engolida pela madrugada fria. Os dois fumam e ela marca o cigarro com batom.
- Senhor Medina! Senhor Medina! – grita à senhora Wagner surgindo como se do nada.
Medina vira-se com desdém absoluto. Carrega sua grande carteira enfiada na cintura da calça como se fosse uma arma.
- O senhor pode vir até aqui?
Sim..., responde ele grudando a barriga no balcão.
- O senhor sabe. Não pode trazer prostitutas a esse motel. São regras da casa.
- Senhorita Wagner. Essa moça não é uma prostitua, é minha namorada.
- O senhor parece ter muitas, senhor Medina.
- Sou um cara de sorte.
- Estou vendo, senhor Medina. Dá para notar. Mas sem prostitutas aqui.
Medina pega a carteira e retira algum dinheiro. A velha senhora Wagner observa calada, os olhos afiados.
- Pegue. É por concordar que minha namorada durma aqui essa noite.
A velha sorri como uma cobra esperta.
- Gracias, senhor Medina.
- Claro.
Medina volta para a mulher que espera impaciente com outro cigarro entre os dedos. Medina é um colombiano de meia idade, barrigudo, gosta de fumar charutos e beber. Chegou ao motel carregando uma enorme mala. Parece ter muito dinheiro e diz que é um homem de sorte.
Wiskow

sexta-feira, 6 de junho de 2008

AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Um dia você sente ódio. O corpo queima a garganta estreita e os olhos ardem. Então você grita com seu pai e dispara uma corrida até o quarto permanecendo o resto da noite lá trancado. Chorando.
Você cresce, sente ódio e bate a porta do carro, o telefone, a mão na parede e um vaso que quase acerta a cabeça de alguém. Você chora muito pouco, bebe muito e dorme bastante.
Você trabalha e sente ódio, e manda numa conversa amistosa com ironia nos olhos sua chefe enfiar no cu seu modo caipira de administração. Depois disso, se inscreve em aulas de boxe próximo ao trabalho e todos os socos no saco de areia são dedicados à Gorda-Feia-Mocréia-Caipira que acha que é gente.
Você sente ódio e nunca mais dirige uma palavra ao escroto machista que trabalha com você e acha que é um tipo quando na realidade é um porco ignorante e limitado.
Até que um dia aulas de boxe, remédios, fitas de meditação e paciência de poucos amigos não são mais suficientes.
Você sente ódio. E descobre que odeia porque na realidade gosta de pessoas mortas. Sim, muito mais do que vivas.
Um dia você realmente alivia seu ódio e percebe que nunca mais poderá parar. Não mais. Então vive em muitos lugares, sempre em busca de um modo de parar o que sente dentro. O calor, a febre, a vontade de tirar um elefante da garganta e do peito.

Você acorda então em muitos lugares estranhos. E todos esses lugares são você.

Bianca Rosolem

quarta-feira, 4 de junho de 2008

intempéries

Eddie olha para Mitzuplik caminhando ao seu lado, olha para as marcas que se aprofundam naquele rosto magro e ossudo, as olheiras, os cabelos rareando, rugas, e de repente descobre que Mitzuplik está envelhecendo, que ele quase já é um velho, a nicotina, a cocaína, as doses de uísque, as esquinas, a loucura das noites, o medo e/ou a necessidade de tapar buracos, tantos amigos sorriam somente o sorriso ébrio, um sorriso igual ao do guitarrista da A Perfect Circle, um sorriso como o de Pepeu Gomes também, Eddie pensa nisso e em outras coisas, ele que nunca pára de pensar, e Mitzuplik deve ter hoje uns 44, 45, por coincidência a sua idade, freqüentaram a mesma classe, moram ainda na mesma rua, na mesma quadra, a mãe dele morreu, sofreu tanto, a sua continua a sofrer, no entanto Eddie acha que o tempo está passando muito rápido, quem não partiu está para partir, quem não sofreu, vai, não vê muita lógica ou significado nisso, mas parece que a vida fode mesmo a todos, sem exceção, a vida é uma vizinha bonita que nunca vai te olhar, é um desejo de ter sido rico e não foi, e ali do lado vai ele, Mitzuplik, com os seus dentes amarelados, a gengiva podre, os rins e o pulmão em petição de miséria, completamente louco, coitado, tão quieto quando menino, educado, o problema de tudo, desconfia, está na inocência, no conseguir preservá-la, inocência ou desdém, sabe-se lá, hoje tudo lhe parece um tanto confuso, Eddie calcula que é possível que também esteja um pouco louco, mais velho também, sempre as mesmas ruas, as mesmas esquinas, os mesmos sorrisos ébrios, tem horas que dá uma vontade de dormir, ele pensa, tem horas que bem poderia possuir poderes ou qualquer coisa assim, e então vê o seu reflexo na vitrine de uma loja, o rosto não lhe parece estranho, mas ao mesmo tempo não o reconhece, desiste de analisá-lo melhor, que nome se dá para essa sensação de cansaço, acúmulo?, perde-se tempo com os horários enquanto os momentos se vão, os dias viram anos, décadas, olha para Mitzuplik outra vez, tão velho, meu amigo, tão acabado, imagina abraçando-o, dizendo-lhe palavras boas sobre o futuro, o mundo, as mulheres, o time do coração, só que há ferrugem demais, ferrugem e uma espécie de tristeza, e Eddie nada diz, não o abraça, não o encara mais, apenas segue caminhando, as mãos nos bolsos da calça jeans, um dente ameaçando doer e uma vontade de fumar.


Rodrigo Melo

domingo, 1 de junho de 2008

Claudia Cardinale

Um pouco de Claudia Cardinale. Isso era tudo. Gabriel quebrou tudo em sua volta e saiu correndo. Deixou Luana na noite suarenta que se transformou-se em tempestade. Luana ainda tentou-lhe lhe acertar com uma garrafa de vinho barato. A única que eles tinham em estoque entre baratas e sonhos mal resolvidos.
- Foda-se tudo. Foda-se você! - gritou Luana. Foda-se seus sonhos com essa tal Claudia Cardinale.
Gabriel quase chrou e segurou-se num ódio imenso. Pegou suas coisas com presa, jogou o que pode dentro de sua mala, junto o velho albúm com fotos de Claudia Cardinale. Com o corpo como se fosse explodir saiu porta afora como um urso furioso. Bateu a porta com toda a força que pode, e enquanto partia ainda ouviu.
- Você é um louco, um desgraçado, um lunático que sonha com uma mulher que não existe! Um homem que ama uma mulher fantasma!
Gabriel seguiu firme no meio da noite em busca de algum motel para dormir, e sonhar com Claudia Cardinale.
Wiskow

sábado, 31 de maio de 2008

Zona Morta

E a Graça só come bananas isolada no sítio decadente que herdou de um tio avô. No terreno, as bananeiras dão cachos graúdos da fruta. Ela diz que encontrou a paz e o sentido vital que estavam perdidos há muito no vislumbre da bananeira. Sinteticamente, a banana é um protesto contra o consumismo. Algo como um manifesto latino – e silencioso - das “repúblicas de bananas” contra a valorização excessiva do materialismo que devasta a sociedade. Blá, blá, blá, eu entendi isso. Foi o que ela disse sentada no meu sofá. Tocou a campainha, entrou, sentou e não parou mais de falar. Nem sequer reparou que eu estava de calcinha e camiseta, com a touca de banho na cabeça. Ela precisava conversar. Alto e com ela mesma. Certamente era isso. Eu dei de ombros, acendi um cigarro asmático, e sentei na mesinha de centro, com a perna cruzada e o ouvido seletivo.

Enquanto ela declamava sobre seu manifesto político-espiritual, uma luz bonita entrava pela janela e descia languidamente até o chão de minha sala. E nestes pedaços visíveis de luminosidade eu observava a suspensão de materiais do ar. Gosto de olhar esta composição e acreditar que tantas coisas existem entre eu, Graça, o sofá, a janela, o chão e o mundo fora do meu apartamento. As coisinhas do ar são muitas e irrequietas.

- Você não concorda?

Ela interrogou-me convicta, esperando que eu fosse melhor e acrescentasse algo. Mas, apenas afirmei com a cabeça e sacudi a mão para dispersar a suspensão: Adeus elementos sem nome do ar. Graça continuou suas palavras e mostrou confiança em seu ideal. Admirei-a por isso. Quase a invejei. Uma raridade, por certo, tal força de caráter em uma empreitada destas.

- Só bananas?

Perguntei para deixá-la mais confortável e assim parecer não tão aborrecida, com aquela touca plástica cafona na cabeça.

- Só.

- Hum. (Isso foi horrível).

Olhei o relógio, estava com fome e não sabia como dizer. Eu não tinha bananas. Abri a geladeira e voltei para a sala com um iogurte nas mãos. A data de validade estava vencida, somente dois dias, mas cheirava bem ainda. Graça, incomodada, se despediu agressiva. Acho que fui insensível. Não respeitei as bananas, a solidão, e todas as coisas do mundo que realmente eu não quero mais saber.

A culpa é das coisas do ar. Eu fico sempre compenetrada nelas. Alguns dizem ser distúrbio de atenção. Outros disseram ser algo do signo solar com o ascendente. Eu não sei de tais coisas, gosto é de ficar perdida por lá. Se o mundo é um grande bocejo de reuniões sem fim, eu olho a luz que escorre pela fresta da veneziana. Ali a imaginação flutua livre e desordenada. Eu suspiro longo e uma ponta de esperança sorrateira cutuca um sorriso no meu rosto quando isso vejo. É quase a possibilidade de voar alto e não cair. Com os elementos suspensos do ar vivo uma promessa além do monótono e crível.

Mas, eu realmente gostaria de, como Graça, me doar a algum propósito. Ou como Eduardo que se virou em (des)propósito com muito whisky e coisas ilegais – não sei de nada disso. Sem atitude de mais ou de menos, eu fico entre as paredes seguras do meu apartamento. A vida vencida cria alguns fungos na geladeira. Lá fora está tudo muito estranho e já não tenho tantos amigos. Alguns estão mortos e estranhamente ainda vivem. Outros comem bananas em cavernas longínquas. Eu tenho certeza de que estou louca, só falta sair por aí xingando todos e carregando uma trouxa de roupas sujas. E dormindo sem teto para constatar que nem no céu existem tantas estrelas. Todas aquelas que alguém que não me lembro prometeu.

Disseram-me que era esse o fim.

Ainda observo o resto da luminosidade da tarde próxima ao lugar recém ocupado por Graça. Fico olhando muito aquilo, todas as coisas flutuam e mexem-se cada vez mais brilhantes. O ar contém tantas pequenas coisas que ainda - quase sem acreditar - não entendi. Espero pegar no sono, muito pesado, sonhar e não lembrar quando acordar.

Bianca Rosolem

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Os suaves pés de Carolina chutam cabeças.

Carolina chega no início da madruada. Bate na porta, pede um quarto, sorri como a brisa. Diz que ficará por apenas uma semana. Pega a chave e sobre as escadas com seus suaves pés. Ontem, eles chutaram a cabeça de seu ex amante.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

vingança

Ele subiu no caixote de madeira, desses que usam para transportar maçãs, e gritou:

- De hoje em diante, quem quiser roubar, matar, estuprar ou o que for, tem que falar comigo antes. Quem manda nessa porra agora sou eu, estamos entendidos?

Não houve sequer um murmúrio na sala abarrotada. Apenas aqueles olhos arregalados, as cabeças balançando pra cima e pra baixo, os dedos entrelaçados uns nos outros e um suor escorrendo da testa.

- Bom, era só isso.

Então ele desceu do caixote, cruzou a sala, olhando no fundo do olho de cada um, e saiu. Lá fora um carro o esperava com motorista e uma loira no banco de trás. Ela vestia uma dessas roupas de vinil preto. Ele a puxou a seu encontro e beijou-a um beijo cheio de força e desespero. Ela tentou se desvencilhar, mas apenas tentou. Com um homem grande e bruto daqueles, necessário mais que força: vingança, ódio, dor. Lembrava-se dele quando, ainda menina, o viu matar todos na casa, os pais, os avós, os irmãos e os bichos de etimação.

- Qual o seu nome, doçura? – ele perguntou.
- Nádia – ela disse.
- Humm... Então, Nádia, me diga: será que você me agüenta em cima duma cama? – e então sorriu alto, como se ganhasse uma guerra.

Ela também sorriu, e isso até caiu bem, mas enquanto ele pensava em sacanagens e fantasias, ela sorria imaginando os golpes que Ming-ho, o velho chinês, lhe ensinara há alguns anos, quando foi sua discípula no Castelo de Groomannn.

rodrigo melo

terça-feira, 20 de maio de 2008

CONFESSIONÁRIO

Honestamente, quando eu não precisava mentir para me sentir confortável com minhas ambições, eu podia aceitar o fato de que ele não era próximo de meus desejos mais íntimos.
Realmente distante, como galáxias e universos. Velocidade da luz mesmo, milhões de anos. Cada um em um canto da existência que não se compreende em ciência alguma.

Sem atrativos físicos, por vezes chato e irritante, ainda assim ele era divertido. Apesar de fingir grande excitação quando não a sentia, eu suspirava e fechava os olhos. Não preciso de muitas preliminares e de foda interminável. Eu sempre preferi a coisa rápida e intensa. O único instante de minha vida no qual nada penso. Não penso. Só depois, com o cigarro aceso, percebo: Algo aconteceu.

Porém, eu acredito que ele gostava de toda uma cena, de horas ali, entra e vai, e eu entediada pensando na próxima posição, aborrecida, cansada de gozar. Rezava para ele logo terminar seu exercício de narcisismo. “Meu falo é tão controlado, tão controlado”... Logo, era um chato.

Terminado, o ar pesado e o corpo amolecido, ele permanecia deitado, descansando comigo, cúmplice, com um abraço cuidadoso. Algum tempo depois se levantava devagar, deslocando-me a um canto da cama. De certo presumia que eu dormia de exaustão da maratona sexual que ele havia me proporcionado. Eu fingia esse mérito também, para então ouvi-lo assobiar tímido no chuveiro.

Ele retornava ainda molhado e me beijava leve para um despertar. Eu nunca dormia ou sonhava, mas fazia um olhar sonolento. Eu acendia um cigarro e, com a cabeça apoiada em suas coxas, olhando para seu rosto, pedia: Faça-me nova em outra história.

E ele então poderia ficar por horas dizendo tantas coisas sobre alguém que ele nem tão bem conhecia ou deveria. E esse alguém tinha o meu jeito de despentear os cabelos e também passava batom sem mirar-se no espelho. A minha heroína que ele sonhava era feliz, corajosa, honesta e conquistadora. Ela não tinha tantas dívidas na gaveta, ou remédios no armário do banheiro. Nem bebia tanto Martini barato. Era champanhe em linda taça, que refletia todo seu brilho em meus olhos, e então eu ficava tão bonita que ele dizia que me amava. Fogos de artifício e música se ouviam, e o mundo girava lentamente ao nosso redor.

E ele muito contava de todas essas vidas que éramos nós em lugares que nem sequer no mapa eu conhecia, e emoções que eu já ressentia eram vivas e também esperanças e pôr-do-sol e sorrisos.

Eu cansava, acredito que era culpa da realidade barulhenta que subia até nossa janela nas madrugadas. Sirenes, cusparadas e discussões baratas. Ainda assim, permanecia admirando-o e cantava alguma música triste em minha cabeça observando o movimento de seus lábios sonhadores.

Eu já não mais poderia ouvir.
Só deixava meu corpo sentir a vibração de sua voz.
Um dia eu voaria.


Bianca Rosolem

Sueli

Não há nada lá fora. Apenas ruídos e a lua cheia clareando a noite. Nenhum barulho no corredor, os apartamentos que enfileram-se no corredor parecem não terem vida. Sueli veste-se, olha o arranjo de flores artificiais sob a mesa e corta um suspiro ao meio. Sueli ficou sabendo por alguém que um novo morador havia mudado-se naquele dia para o motel. Alguém falou algo sobre ele ser um escritor. Sueli nunca havia encontrado um antes, tinha em seu imaginário que escritores fossem seres quase mitológicos, que andavam sob a terra como anjos, fantasmas, criaturas diferentes de todo o resto, que andavam sobre a terra, mas poucos tinham visto ou convivido com um. Sueli enganava-se sem saber que a meada de um escritor fedia tanto como a de outro qualquer. Sueli espia a lua, linda, grande, parece sorrir lá de cima. Ela sorri satisfeita. Sueli procura o maço de cigarros entre as coisas na estante. Acende e vai até a janela, dá uma tragada e solta a fumaça com prazer, pensa no novo morador e quando percebe sente-se como se estivesse apaixonada. Sueli mora no motel há muitos anos. Conheceu muitas pessoas por ali, até mesmo fantasmas, mas nunca um escritor, ela pensa enquanto traga seu cigarro dando baforadas para a lua.
Emerson Wiskow

sábado, 17 de maio de 2008

“NÃO QUERO NADA NÃO”

Um pouco de imaginação e você pede “mais uma, por favor”, enche o copo e dá aquele golaço fechando os olhos. Nesse meio tempo, de olhos fechados para abrir, dá para sonhar. Se conversa de alcoólatra, eu pulo, porque a novela da Globo já usa demais o assunto.
É só vontade mesmo de sentar em algum lugar e deixar o tempo passar passando, e tudo é passeio. Conversa de menos, a cabeça pensa demais, e racional ando em excesso, e falta tragédia picada crua nas minhas palavras.
Se critico, sou uma chata, pedante, arrogante – alguém pode elogiar mais, por favor? Se poetizo, morro no inferno doce das utopias. E, quando reclamo em primeira pessoa, me coloco na frente da roda da vida, expondo meu umbigo da bunda para qualquer pontapé errado. E, quem pensa que saio ganindo - ledo engano! - sou cadela safada, que volta e pede mais. Aprendi “de pequena” que tapa – só de amor, hein! – educa e faz crescer.
Eu lá fiquei com as baixinhas e se algo cresceu, foi essa rudeza com o mundo e uma perversão masoquista DO eu PARA o eu. Psicanálise eu faço baratinho, senta aqui do meu lado que eu não fujo, pode chorar sim, eu até gosto, deixa só um “bocadinho” para que eu também possa desfiar os retalhos dos meus fundilhos.
Veja lá, estou quase reclamando...Entenda, estou quase agüentando... Eu sinto é saudades de algo que eu nunca vivi. É esse cheiro estranho desses dias de muito se gostar só. Passa alguém e sinto esse perfume de quem não lembro. Estou intrigada pelo conhecimento do dono cheiroso dessas memórias perdidas. E, sabe, vou confessar que isso ainda me deixa um pouco feliz, quase esperança. E também, conseguir no outro dia acordar e fazer tudo igual sendo que dentro está tão diferente parece uma força. Eu acho que tenho mais fé que pensava.
E parece uma coisa redonda que vai, vai, vai, e caí ali, exatamente no tropeço inicial. O mistério é o suspense de viver. Mas o segredo é besta, como o mordomo ou o Coronel Mostarda, na cozinha, com o candelabro.Esse é tabuleiro e as cartas são marcadas, “vai se acreditando esperta, menina”. Mas eu realmente não estou pensando nada não, são as palavras fugindo e a cerveja esquentando.

Bianca Rosolem

sexta-feira, 16 de maio de 2008

anos 70 na casa da minha avó

Minha avó Hilza bebia uísque nacional, Drurys ou Old Eight, e usava umas camisas estampadas com desenhos de flores, araras e florestas tropicais. As camisas pareciam batas, com as golas e as pontas das mangas feitas com tecidos lisos, de uma outra cor. E ela gostava dessas batas, andava pra lá e pra cá, toda colorida. Os filhos a chamavam respeitosamente de “A Velha”, e pode-se dizer que era uma velha bacana – do palavreado, coisas bonitas e espirituosas, simples também, e a Pantera cor de rosa passando na tv, o buraco com as comadres, o time do coração estampado no fundo do cinzeiro e ela a sorrir, talvez lembrando das ruas do Jorro, pra onde ia com a parentada no verão: as ruas de barro e o sertão, mingau de milho, tapioca, feira de manhã.
Das lembranças muito nítidas, um tapa por quebrar um jarro, a gaveta do guarda-roupa com os sacos de balas Soft e de chocolate, a cozinha sempre cheia e lá fora o quintal, grande, com rex amarrado num canto e os pés de acerola, carambola e biri-birí. Havia também a mesa farta, de gente e de comida, e a troca de pratos e conversa que não acabava mais. Dias bons, anos bons, o mundo possivelmente tinha mais serenidade e inocência.
Meu avô por essa época andava nas roças, cuidando dos negócios da família e de outros também. Nas horas vagas, aparecia. A velha, que tinha o coração mole e grande, aceitava-o com o melhor sorriso. E então nesse dia fazia sol, e de uma hora para outra as balas Soft surgiam como num passe de mágica, e havia sempre futebol na tv, pudim de leite com calda de ameixa sobre a mesa, acerolas no quintal, Rex fugindo para a rua e a impressão de que essa vida corrida, ingrata e por vezes louca estaria sempre aqui, na palma da minha mão.


Rodrigo Melo

sexta-feira, 9 de maio de 2008

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Acordou e foi até a pia do banheiro. No meio do caminho, lembrou do exame que teria de pegar à tarde, da construção que não acabava, da gravidez da mulher. Lavou o rosto, sentou-se para tomar café, em seguida levantou-se e foi na obra:

- faltou brita...

Participara de um show na noite anterior, também parou na frente do computador e pôs-se a treinar Excel, ligou para a mãe, fez uma lista de compras – farinha de trigo, queijo, uma janela de vidro para a construção. Por vezes o dia amanhecia meio nublado e ele se escondia, por vezes fazia sol e vinham as iluminações e ele se descobria único: poderia estar em outro corpo, ter outros pés, outras mãos, outra mente, mas veio e nasceu um pouco assim e se transformou no que era agora – e se nascesse libriano, chinês, gabiru? E em outro país? E as tais reencarnações, hein? Tanta coisa pra pensar se existe ou não, afora a realidade das matemáticas das lojas de materiais, do falso bom humor dos vizinhos, do calor do sol, do estoque na despensa ou a ressaca da noite anterior. Preguiça pra ser tantos. Preguiça e medo. Enquanto não se decide, espera os dias passarem, torcendo para que Deus lhe dê sorte e uma filha cheia de compreensões.

- faltou areia e cimento também.

E a vida seguindo a correnteza do mar, lá embaixo um arco-íris dizendo que não vai mais chover.
Rodrigo Melo

terça-feira, 6 de maio de 2008

Motel - Chegada

Carlos entrou na recepção do motel. Trazia consigo apenas uma mala atrolhada de coisas. O sol ainda refletia um suave abraço nas coisas. Uma sensação de bem estar percorreu-lhe o corpo. Uma mulher com o cabelo pintado de vermelho atendia atrás do balcão da recepção. Aparentava algo em torno dos quarenta, quarenta e cinco anos. Tinha seios fartos, ancas largas. Carlos pediu um quarto e observou enquanto ela foi até um velho armário pegar um livro. Os raios do sol manchavam a mesa, listrava um sofá azul marinhos e o chão da pequena saleta da recepção.
Apartamento número dois, disse a mulher sorrindo e dando-lhe a chave depois de pegar algumas informações de costume.
- Apartamento número dois - repetiu Carlos. Obrigado.
Carlos subiu as escadas e sumiu no corredor.
Emerson Wiskow

QUANDO VOCÊ NÃO DISSE MAIS "EU TE AMO"

Você virou, deixou-me suas costas e dormiu. Ainda permaneci olhando o teto sem forro e as teias de aranhas na vigas. Sentia frio. Eu olhei para você querendo dizer algo sobre os insetos mas te estranhei. Olhava suas costas e não entendia. EU NÃO ENTENDIA. Apoiei a cabeça com as mãos e olhei seu rosto. Procurei por algo. Permaneci assim por um tempo. O corpo semi-ereto, olhando por cima de seus ombros: O seu rosto. Tinha algo de bom e algo de ruim. Dentro de mim. Eu não acreditava, não sei se por sua falta ou pela minha. A fé estava escondida em algum lugar daquele quarto, você procurou aquele dia mas só encontrou um maço de cigarros vazio. Eu poderia dizer muitas coisas, mas nunca conseguia. Poderia dizer do quanto quero, mas algo me faz engolir as palavras junto com a bebida. Eu tenho coragem, só duvido da sua.

A aranha fazia sua teia, paciente, ela traçava destinos e fins. Alí algo iria morrer. E sempre morria dentro de mim, também, e eu sentia uma tristeza que me fazia ficar embaixo do chuveiro quente. Eu chorava ali, encolhida, sentindo a água, e você nem percebia enquanto fazia a barba.
Eu chorei algumas outras vezes também. Poderia estar chorando agora, vislumbrando suas costas frias e distantes como as paredes. Mas acho que algo perdeu-se naquelas teias antigas do telhado e da vida.

Descansei a cabeça no travesseiro, esperando por algo maior. Exstia uma vida insatisfeita e faminta, algo ainda incompreensível que me fazia querer correr.
E quanto mais de fome eu doía, e quanto menos eu respirava, eu procurava o calor de seu corpo estendido e inerte. E depois do conforto instantâneo, ficava perdida novamente. Era uma falta sem saber.

Fiquei ainda procurando por algo sobre nossas cabeças, alguma resposta, algum alívio, algum fim sem sentido. Sem sentir. Sem viver aqui esperando o retorno das suas costas. A aranha está ali, nos olhando, tecendo, cuidadosa. As suas costas e as paredes. Sozinha.
Bianca Rosolem